29 dezembro, 2018

Antes do pote e do cesto: a cabaça

É muito bom falar sobre como o uso do fogo mudou o curso da evolução humana. Mas, depois do passado remoto, ficar de pé diante do fogo como agora é apenas parte da culinária. Muitas outras coisas têm de continuar sendo feitas: esfolar, cortar, transportar e... armazenar.
Talvez seja por isso que as humildes cabaças foram algumas das primeiras plantas a serem domesticadas.
O termo "cabaça" não é botânico, mas é o que você usa. Ele cobre uma variedade de plantas com partes globulares ocas, sendo o termo frequentemente estendido para as plantas em que elas crescem. Muitas estão na família Cucurbiticaea, outras crescem em árvores da família Bignoniacaeae. Em todo o mundo, a mais importante é a cabaça Lagenaria siceraria.
Recipientes úteis e muitas vezes bonitos podem ser feitos de cabaças. Elas variam muito em tamanho: daquelas que você mal consegue abarcá-las até aquelas bem pequenas que você pode segurar na palma de sua mão.



Acima está uma cabaça aberta ao meio que eu comprei em um mercado no sul da Cidade do México. Cortada desta maneira, ela é um par de grandes colheres. Cortada na parte inferior, faz uma tigela. Cortada na parte superior, e conectada com madeira ou palha, faz um jarro. E, cortada de cima a baixo, transforma-se em uma caixa de aninhamento.
São muitos os exemplos das possibilidades de utilização das cabaças.
Da África para as Américas, de Roma para o Japão, e para os confins do norte e sul do Pacífico, as pessoas usaram-nas para muitos fins além da culinária: desde caixas de rapé a cachimbos, a gaiolas de grilos e instrumentos musicais.
Um dos seus usos mais intrigantes foi como uma bainha de pênis. Em Papua, Nova Guiné, na década de 1970, montou-se uma campanha para persuadir os homens a abandonar as cabaças em favor das calças de pano.
No entanto, do ponto de vista da história da comida, as cabaças não são tão limitadas. Leves, disponíveis, são porosas o suficiente para resfriar líquidos por evaporação; estéreis o suficiente para fazer queijo e manteiga; resistentes o suficiente para aquecer e cozinhar; e fortes o suficiente para armazenar carne e grãos. Além disso, o cuidado com que elas são cortadas, pintadas, adornadas e polidas sugere que, não apenas hoje, mas na história da humanidade, comer é muito mais do que simplesmente uma questão de nutrição, mas fundamental para a vida social, cultural e religiosa.

Extraído de: Before the Pot, Before the Basket . . . the Gourd, por Rachel Laudan

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