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29 janeiro, 2024

1984

Os livros tornam-se influentes de diferentes maneiras. Antes da impressão em massa e das listas de best-sellers, sua repercussão dependia de quem lia um determinado livro. Se um livro influenciasse uma pessoa poderosa, poderia mudar o mundo. Se fosse lido por estudiosos, poderia mudar toda uma disciplina, como a astronomia. No mundo moderno, os livros mais vendidos podem influenciar a opinião pública, revelando o que antes era desconhecido para a maioria dos leitores, ou especulando sobre o que poderia ter sido, ou o que poderia algum dia ser. A opinião pública percorre um longo caminho para mudar a sociedade e, de fato, foram os livros que alimentaram o fim da escravidão, o feminismo, os direitos civis, as regulamentações ambientais, a revolução comunista e outros movimentos que mudaram o mundo.
1984 - "É uma fantasia do futuro político e, como qualquer fantasia, serve a seu autor como um dispositivo de ampliação para um exame do presente", escreveu o The New Yorker na publicação do "Nineteen Eighty Four", em 1949. Essa revisão poderia ter sido escrita ontem. Embora dificilmente seja um conto de terror, o romance de Orwell - sobre o escritor Winston Smith, obrigado a mudar a verdade para se adequar ao estado dominador - há muito tempo é uma pedra de toque para alertas sobre futuros distópicos.
A expressão "big brother", por exemplo, surgiu de Orwell, que estava gravemente doente com tuberculose enquanto escrevia o livro. (Ele morreu poucos meses depois de ter sido publicado.) E a novela tornou-se uma súmula da autoridade opressiva e da verdade flexível - ou, em uma palavra, orwelliana.
(https://www.mentalfloss.com/posts/books-that-changed-the-world)

04 novembro, 2021

Chapéus e capacetes contra a invasão mental

No início do século vinte, provavelmente mais ou menos quando o conhecimento sobre eletromagnetismo estava começando a chegar aos leigos com maior intensidade, explodiram teorias conspiratórias sobre controle mental. O mundo estava passando pelas turbulências ideológicas que levaram às grandes guerras e que foram por elas causadas, e o medo da figura do governo controlador era uma das palhas mais fáceis de queimar. 
Então, os teóricos da conspiração fizeram o que fazem melhor, pegaram um monte de informação solta, amarraram de uma forma conveniente, e criaram o chapéu de papel-alumínio, a proteção n.º 1 contra controle mental governamental. 
Bruno Prado Santos, QUORA

Mas a história do chapéu é ainda mais antiga. Há referências ao acessório num conto muito esquisito e presciente, escrito em 1927 por ​Julian Huxley, irmão do famoso Aldous e meio-irmão de Andrew, laureado do prêmio Nobel.
Além de escrever, Huxley era biólogo evolucionista e, infelizmente, eugenista, e o conto ​"The Tissue-Culture King" (A Cultura de Tecidos do Rei) explora bastante tal ofício. O enredo trata de um cientista chamado Hascombe, que se perde numa floresta e é capturado por uma tribo. Hascombe ganha a simpatia da tribo com sua capacidade "mágica" de cultivar amostras de carne do rei local, Bugala.
O que sucede é tão distópico e agradavelmente detestável quando os trabalhos mais famosos de Huxley. Mantido em prisão domiciliar, Hascombe se torna uma espécie de Dédalo e é forçado a emprestar seus talentos a um regime corrupto. Mas a proximidade do poder sobe à sua cabeça, e Hascombe transforma suas "ambições intelectuais pervertidas" em controle de mentes em massa.
Por fim, o cientista hipnotiza o rei e escapa vestindo uma "capa de papel-alumínio", que é "relativamente à prova dos efeitos telepáticos". Mas ele é dominado assim que tira a capa. O narrador lamenta:
"Roguei e implorei para que ele pensasse bem e mantivesse a decisão, que seguisse em frente. Nossa, como eu me arrependi! No ímpeto de descartar todo e qualquer peso inútil, deixamos para trás nosso capacete, nossa proteção contra a telepatia."
Roisin Kiberd, Uma breve história do chapéu de papel-alumínio, VICE 

Em 2005, pesquisadores realizaram no Massachusetts Institute of Technology (MIT) um estudo empírico sobre a eficácia dos capacetes de folha alumínio. Entre uma comunidade periférica de paranóicos, os capacetes de alumínio servem como medida de proteção de escolha contra sinais de rádio invasivos.


Investigamos a eficácia de três modelos de capacete de alumínio (O clássico, O Fez e O centurião) em um grupo de amostra de quatro indivíduos. 
Usando um analisador de rede de US $ 250.000, descobrimos que, embora em média todos os capacetes atenuem as frequências de rádio invasivas em ambas as direções (seja proveniente de uma fonte externa ou proveniente do crânio do sujeito), certas frequências são de fato bastante amplificadas.
Essas frequências amplificadas coincidem com as bandas de rádio reservadas para uso governamental de acordo com a Federal Communication Commission (FCC).
A evidência estatística sugere que o uso de capacetes pode de fato aumentar as habilidades invasivas do governo.
Especulamos que o governo pode de fato ter iniciado a mania dos capacetes por esse motivo.
Conclusão
Os capacetes amplificam bandas de frequência que coincidem com as atribuídas ao governo dos Estados Unidos entre 1,2 Ghz e 1,4 Ghz.
De acordo com a FCC, essas bandas são supostamente reservadas para "localização de rádio" (ou seja, GPS) e outras comunicações com satélites.
A banda de 2,6 Ghz coincide com a tecnologia de telefonia móvel. Embora não sejam filiadas ao governo, essas bandas estão nas mãos de empresas multinacionais.
Não é necessário esforço de imaginação para concluir que a atual mania dos capacetes provavelmente foi propagada pelo governo, possivelmente com o envolvimento da FCC.
Esperamos que este relatório incentive a comunidade paranóica a desenvolver designs de capacete aprimorados para evitar ser vítima dessas deficiências. (17/02/2005, MIT)
http://web.archive.org/web/20100708230258

23 junho, 2020

O Conto da Aia

Em uma sociedade patriarcal, machista, como ainda são as nossas, ainda mais quando se organiza em uma ditadura religiosa ou em uma tirania filosófica, como defendia Platão, onde será que as mulheres iriam parar?
Margaret Atwood responde com muita sabedoria: Na República de Gilead, claro.
Em "O Conto da Aia", Margaret Atwood descreve uma ditadura religiosa, uma teocracia, chamada República de Gilead, onde foram adotados quase todos os princípios defendidos por Sócrates e descritos por Platão no seu livro "A República". Princípios que, em maior ou menor escala, já foram adotados em nossa filosofia ocidental judaico-cristã e que continuam a fazer enorme sucesso entre aqueles que teimam em defender repressão como única forma de controle e crescimento do ser ser humano.
Na República de Gilead, como na de Platão, estão presentes:
- as mulheres são seres inferiores e suas únicas "utilidades", são cuidar da casa, da cozinha e procriar;
- Platão/Sócrates defendiam o infanticídio como forma de depurar a raça. Em Gilead eram as mulheres estéreis e rebeldes que iam parar em colônias penais, onde morriam. Ou, então, em eventos chamados de "Salvamentos" onde eram executadas em praça pública;
- na República de Gilead, uma teocracia, o absolutismo era a forma de governo;
- a sociedade estava estratificada em castas: os Comandantes, as Esposas, as Martas, os Olhos, os Guardiães, as Tias e as Aias;
- foi imposta severa censura sobre as artes e artistas: poetas, músicos, atores, compositores, etc;
Margaret Atwood descreve para que serviam uma das Aias: "...fazia parte da primeira leva de mulheres recrutadas para propósitos reprodutivos e fora destinada àqueles que não só requeriam esses serviços bem como podiam reivindicá-los por meio de sua posição na elite. O regime criou uma reserva imediata dessas mulheres ao declarar adúlteros todos os segundos casamentos e ligações extraconjugais, prendendo as parceiras do sexo feminino, e, com fundamento de que elas moralmente inaptas, confiscando os filhos e filhas que já tivessem, que foram adotados por casais sem filhos dos escalões superiores que era ávidos por progênie, quaisquer que fossem os meios empregados."
Nesta descrição parece ecoar todas as palavras de Sócrates, transcritas por Platão em "A República":
"Sócrates — De acordo com os nossos princípios, é necessário tornar as relações muito frequentes entre os homens e as mulheres de elite, e, ao contrário, bastante raras entre os indivíduos inferiores de um e outro sexo; além do mais, é necessário educar os filhos dos primeiros, e não os dos segundos, se quisermos que o rebanho atinja a mais elevada perfeição: e todas estas medidas deverão manter-se secretas, salvo para os magistrados, a fim de que, tanto quanto possível, a discórdia não se insinue entre os guerreiros."
"Sócrates — Assim, se um cidadão, mais velho ou mais novo, se imiscuir na obra comum de procriação, nós o declararemos culpado de impiedade e injustiça, pois fornece ao Estado um filho cujo nascimento secreto não foi colocado sob a proteção das preces e sacrifícios que as sacerdotisas, os sacerdotes e toda a cidade oferecerão para cada casamento, a fim de que de homens bons nasçam filhos melhores, e de homens úteis, filhos ainda mais úteis; um tal nascimento, ao contrário, será considerado fruto das trevas e da libertinagem."
A única diferença era que em "A República", de Platão, Sócrates defendia: "Todas as mulheres dos nossos guerreiros pertencerão a todos: nenhuma delas habitará em particular com nenhum deles. Da mesma maneira, os filhos serão comuns e os pais não conhecerão os seus filhos nem estes os seus pais."
A sociedade ocidental que se crê religiosa, culta e civilizada ainda tem muita recaída para o lado da simples repressão como forma de catalizar o medo que está sempre latente no seio de todas as comunidade humanas. Esta a parte mais horripilante do universo descrito em "O Conto da Aia", porque é um universo que está bem perto de todos nós. Ou, no mínimo, como um universo potencial onde os religiosos têm sede de assumir o poder em qualquer país do mundo e transformá-lo em uma tirania.

Fernando Gurgel Filho

24 abril, 2020

Brand New Roman (2)

Se você é completa e irrevogavelmente louco por marcas, finalmente temos a fonte ideal para você. Os criativos da agência digital Hello Velocity desenvolveram o Brand New Roman, uma fonte composta por 76 logotipos de marcas corporativas.
O projeto no estilo da idiocracia é parcialmente uma paródia, mas você pode realmente fazer o download da fonte e usá-la - - e os artistas já estão brincando com ela também.
Um deles imprimiu "O Manifesto Comunista" em Brand New Roman, o que levou Lukas Bentel, sócio e diretor de criação da Hello Velocity, a reconhecer que "esse estágio do capitalismo é bem estranho".

Idiocracia
O mundo vivendo numa sociedade distópica em que a publicidade, o marketing, o consumismo, o mercantilismo, e o anti-intelectualismo cultural funcionam desenfreadamente e que a pressão disgênica resultou numa sociedade humana uniformemente estúpida, insensível ao meio ambiente, desprovida de curiosidade intelectual, responsabilidade social, e noções coerentes de justiça e direitos humanos.

15 dezembro, 2018

HTTP 451

Em redes de computadores, HTTP 451 Unavailable For Legal Reasons (Indisponível Por Razões Legais) é um código de status de erro do protocolo HTTP, a ser exibido quando o usuário solicitar um material ilegal, como uma página web censurada pelo governo. O número 451 é uma referência à novela distópica Fahrenheit 451, escrita por Ray Bradbury em 1953, na qual livros são ilegais. O 451 pode ser descrito como uma variante mais descritiva do 403 Forbidden (Proibido).

09 março, 2018

A questão da realidade como simulação

Em 1977, o escritor Philip Kindred Dick (1928-1982) explicou com suas próprias palavras como uma revelação lhe mostrou que poderíamos viver em uma realidade simulada, algo que foi incorporado em muitas de suas obras em que o mundo não é o que parece, mas algo que é de algum modo fabricado e que alimenta nossas mentes, nos controla ou algo pior.
A bibliografia autoral de Philip K. Dick engloba dezenas de contos, novelas e romances. Se você olhar apenas para a seleção do que já foi adaptado para o cinema - provavelmente o crème de la crème - vai encontrar autênticas obras-primas do gênero. Para mencionar apenas algumas, em ordem cronológica:
  • Blade Runner, o Caçador de Androides (1982)
  • O Vingador do Futuro (1990) (2012)
  • Minority Report - A Nova Lei (2002)
  • O Pagamento (2003)
  • O Homem Duplo (2006)
  • O Homem do Castelo Alto (TV, 2015)
  • Os Agentes do Destino (2011)
Quase todos estes filmes têm um aspecto em comum: o das realidades alternativas ou simulações em que os personagens vivem. As memórias do replicador do Blade Runner são fabricadas; o passado do protagonista de O Vingador do Futuro foi deletada e reconstruída; o futuro pode ser visto (e alterado) no Minority Report; o protagonista de O Pagamento apaga a memória depois de cada trabalho que realiza; O Homem do Castelo Alto é definido em uma realidade alternativa em que os nazistas ganharam a guerra e homens de preto, em Os Agentes do Destino, manipulam a realidade desta história para que ela siga o curso "certo".
Há também o caso mais revelador sobre isso, em O Show de Truman, cujo roteiro parece "com desconfiança" com o Time out of Joint (em português, O Homem Mais Importante do Mundo), uma curta história de Dick.
Naturalmente, não poderia ser excluído Matrix, que traz a marca dos irmãos Wachowski no roteiro, mas certamente bebe dessas e de muitas outras fontes. Talvez tenha sido o que mais popularizou a ideia de que "vivemos em uma simulação de computador", mas PKD já havia elaborado essa ideia vinte anos antes de Matrix:
"Estamos vivendo em uma realidade programada por computador e a única pista que temos é quando alguma variável ​​'muda' e alguma alteração ocorre em nossa realidade. Não conheço ninguém que tenha feito essa declaração antes, mas penso que a minha experiência não é única."
Fontes
PKD y la cuestión de «la realidad como simulación», Microsiervos
Wikipédia

05 setembro, 2015

Distopia, a luta final

Em breve nesta Terra
Não, definitivamente, não!
Não tenha medo do capitalismo. Muito menos do socialismo. Ou de qualquer ideologia que lhe diga como deve ser controlado o sistema de produção e de repartição do produto.
Isto, em pouco tempo, estará completamente esquecido e enterrado na memória dos que ainda puderem se lembrar desse tempo feliz em que se morria e se matava por uma ideologia.
As mentes mais otimistas criaram as mais belas utopias do planeta. Utopias que poderiam se transformar em realidade. Mas, infelizmente, a realidade é distópica.
A se julgar pelo desenvolvimento das economias, em que são geradas, cada vez mais, pessoas que não têm acesso aos mais elementares bens de sobrevivência, podemos olhar para o futuro e dizer, quase com certeza absoluta: os campos de concentração podem ser vistos com clareza em um horizonte não muito distante. Independentemente de crenças, ideologias, raças e sistemas econômicos. Isto é uma certeza.
Uma outra, mais grave, é que uma nova luta se avizinha. Uma luta que deveria começar a ser travada agora. E com rigor. Dependerá dela a sobrevivência da humanidade por mais algum tempo.
E esta luta deverá ser travada contra o que nos é mais caro: a Ciência. Não contra a Ciência das descobertas que propiciam bem-estar e progresso à humanidade. Mas contra a Ciência sem qualquer escrúpulo ou ética. A que atende apenas aos apelos do capital e da dominação de mercados. A que não tem raça, credo, ideologia ou qualquer sentido moral. A Ciência que, com seus artefatos de destruição em massa, amedrontava Carl Sagan.
Mas, sorrateiramente, as pesquisas caminharam para um lado que ele não previra. Para a Ciência que levará às últimas consequências a dominação da produção e da reprodução dos alimentos, pelo desenvolvimento de espécimes que somente podem ser cultivadas a partir de sementes fornecidas por um ou outro controlador do processo de produção dessas sementes. Sementes que geram sementes apenas para consumo, sendo estéreis e inúteis para o plantio. Sementes que, a cada plantio, têm que ser compradas de um ou dois produtores. Sementes que não geram flores e que podem acelerar a extinção das abelhas. Sementes que controlarão definitivamente a vida do ser humano.
Esta deverá ser, talvez, a última Grande Batalha antes da extinção do ser humano.
Fernando Gurgel Filho

N. do E.
Esta tecnologia, chamada de Terminator, produz plantas geneticamente modificadas para tornar as sementes estéreis. Oficialmente chamada de Tecnologia Genética de Restrição do Uso, esta técnica foi inicialmente desenvolvida pela empresa Delta and Pine – atualmente de propriedade da Monsanto, em parceria com o governo dos Estados Unidos. O objetivo da utilização das sementes Terminator é evitar que os agricultores replantassem as sementes colhidas maximizando, assim, os lucros dessa indústria. Assim, os agricultores ficarão dependentes das sementes vendidas pelas grandes empresas. Como as sementes produzidas pelas plantas não serão férteis, a prática bastante comum entre os agricultores, principalmente entre aqueles que praticam a agricultura familiar, de guardar sementes para o cultivo tornar-se-á inútil.