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11 abril, 2024

Reflexões estudantis: o inventor do garfo foi queimado pela inquisição?

Por André Gurgel

Durante uma aula, numa instituição e com um professor de cujos nomes não me quero lembrar, tomei conhecimento de que, durante a Idade Média, o criador do garfo teria sido queimado em praça pública pelo motivo óbvio de criar um instrumento, bastante útil diga-se de passagem, que se assemelhava ao tridente utilizado pelo diabo. Ou seja, um garfo!
A informação foi transmitida numa aula que nem sequer era relacionada a História em si, mas o professor de barba avantajada (por que será?) achou que seria de bom feitio que os alunos soubessem deste fato histórico. Afinal, contra fatos não há argumentos (contra facta argumenta non sunt em latim).
Assim que ouvi tal "fato", já me acendeu o que chamo de "desconfiômetro", meu ceticismo natural entrou em ação. Ninguém questionou na aula, pois os alunos, como de praxe, estavam mais interessados na matéria que iria cair na prova e tacitamente concordaram, mas eu fui conversar com o professor para saber onde estava a fonte que comprova a informação mencionada. Ele disse que não se lembrava, que havia lido num livro de um historiador de nome estrangeiro, mas que não saberia dizer o título naquele momento.
Meu raciocínio foi o seguinte: se queimaram o inventor do garfo, como a igreja permitia então o uso do tridente? O tridente é um instrumento comum em diversas culturas, sendo primordialmente utilizado na pesca, e um símbolo frequente na mitologia, sendo a arma de Poseidon e Shiva. Também era adaptado para a guerra e, nos combates de gladiadores, havia os retiarii, que se armavam de uma rede e tridente, então como o instrumento não foi banido e não tivemos registros de fogueiras coletivas para pescadores?
Naquele dia pesquisei bastante e não achei nenhuma referencia à morte deste herege e mártir da gastronomia. Descobri que o instrumento era utilizado desde a Antiguidade em várias culturas e não sabemos quem foi a pessoa que primeiro idealizou um garfo.
Esta história mostra um pouco como funciona um sistema de ensino em que os alunos mais se preocupam com notas e em "passar de ano" do que em fatos históricos. Isto contribui para que professores falem o que quiserem, pois sabem que não serão questionados.

16 dezembro, 2023

Reflexões de Mujica

Pepe Mujica (José Mujica, ex-presidente do Uruguai) e a felicidade
Aprendi que, se você não pode ser feliz com poucas coisas, não conseguirá ser feliz com muitas coisas.
A felicidade está naquele pedacinho de tempo que a gente consegue gastar nas coisas de que gosta. Nesse momento você está livre, portanto feliz.
A vida é tão bela que, se você não luta para ser feliz, qual é o significado da vida?
Nada vale mais do que a vida. Lute pela felicidade! E felicidade é dar conteúdo à vida e direção à vida e não deixar que ela seja roubada de você.

06 abril, 2020

Só mudar o suficiente

CLASSES
O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada.

DEMOCRACIA
Toda a história da democracia no Brasil é a história da educação da nossa elite na arte de não mudar nada, ou só mudar o suficiente para não perder o controle.

ELITES
O Brasil é governado por uma minoria esmagadora.

JEITINHO
Nós brasileiros somos, paradoxalmente, a raça do jeito pra tudo e a raça que não tem jeito mesmo.

MUDANÇAS
As nossas elites não mudaram muito desde dom João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.

PACIÊNCIA
No Brasil, as classes inferiores cumprem seu papel e dão às elites repetidos exemplos de bom senso, honestidade e, principalmente, contenção e paciência. Quando a paciência acaba – como na questão das invasões de terra –, não falta quem se sinta ultrajado, como se os pobres estivessem, irresponsavelmente, esquecendo as regras da etiqueta.

PRIVILÉGIOS
Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de qualquer casta dominante.

Ver!ssimas frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo / Luis Fernando Verissimo : organização Marcelo Dunlop : seleção de ilustrações Fernanda Verissimo e Fraga – 1ª ed. – Rio de Janeiro : Editora Objetiva. 2016.

19 abril, 2018

E quando abrimos os olhos...

Vinieron.
Ellos tenían la Biblia y nosotros teníamos la tierra.
Y nos dijeron:
“Cierren los ojos y recen.”
Y cuando abrimos los ojos,
ellos tenían la tierra y nosotros teníamos la Biblia.
Eduardo Galeano (1940 - 2015)

Contraponto
Duas traquinagens poéticas

No Brasil, todo mundo tem sangue de índio. Uns, nas veias, e outros, nas mãos.
Se a lei fosse cumprida, estaríamos presos por receptação de terras roubadas aos índios.
Estrangeiros ilegais têm sido sempre um problema nos Estados Unidos. Perguntem a qualquer índio por lá.
Ver MAIS

Curumim chama Cunhatã que eu vou contar
(Todo dia era dia de índio)
VÍDEO c/ Jorge Ben e Baby Consuelo

30 maio, 2014

Crédito à cama


Nós nunca somos tão virtuosos como quando estamos doentes. Algum um homem doente já foi tentado pela cobiça ou luxúria? Ele não é um escravo de suas paixões nem de suas ambições com a profissão; ele não se importa com a riqueza e se contenta com o pouco que tem, sabendo ainda que pode perdê-lo. É, então, que ele se lembra dos deuses e percebe que é mortal: ele não sente nenhuma inveja, admiração, nem desprezo de qualquer homem: nem mesmo uma conversa insultuosa pode prender a sua atenção ou dar-lhe estímulo para o pensamento, e seus sonhos são todos de banhos e primaveras amenas. Estes são sua única preocupação, o objeto de todas as suas orações, enquanto ele resolve que, se tiver a sorte de se recuperar, vai levar uma vida sóbria e simples no futuro, isto é, uma vida de inocência feliz.
Então, aqui para a nossa orientação, é a regra aquilo que os filósofos buscam expressar em palavras e textos intermináveis: na saúde, devemos continuar a ser os homens que prometemos nos tornar quando a doença levou as nossas palavras.

02 novembro, 2013

Personificações da Morte

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Eu sei que o assunto desta postagem parece algo macabro, mas vamos deixar as coisas escuras claras. Remember: há uma luz no fim do túnel.
Ao longo da história, o ser humano já criou múltiplas personificações antropomórficas para a morte, talvez para tornar mais aceitável a sensação de impotência ante o seu inevitável final. Em alguns casos, essa personificação origina histórias de que a morte pode ser subornada, enganada ou iludida, a fim de manter uma vida. No entanto, ela invariavelmente chega a todos sem distinção de situações especiais.
E a morte já foi designada por uma grande quantidade de nomes: Parcas, o Anjo da Morte, a Ceifadeira de Vidas, a Indesejada das Gentes, para citar alguns. Também já foi imaginada de várias formas, a mais comum é a de um esqueleto, coberto com manto negro e com capuz, que carrega uma foice de grande tamanho. Pode, ainda, estar a conduzir uma vela, um terço, um livro, um globo terrestre, uma ampulheta ou outro objeto simbólico.

No blog
O que passou, passou?, O que acontece on-line quando você morre?, A Tanatologia é de Morte, Pensamentos mortais, Dr.Asdrúbal e a Morte, Upgradead, A vida como um labirinto e Caçarolada à Caçadora


No YouTube
La Muerte - Parte 1 e Parte 2

31 maio, 2013

Quando ideias são perigosas

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Ruina para la mente
Una creencia no es simplemente una idea que la mente posee, es una idea que posee a la mente.
De @TapasdeCiencia, Enrique Coperías citando Robert Oxton Bolt, escritor britânico

2
Enfim, ideias são perigosas, poderíamos dizer sem muito exagerar. Elas têm o poder de controlar nossas vidas. Por isso, uma postura cética, pela qual busquemos sempre submeter as ideias que mais peso têm sobre nossas vidas a seguros testes de validade disponíveis, é algo tão precioso para a espécie humana. Porém, para nossa infelicidade, apenas muito recentemente em nossa história isso se tornou uma prática entre nós e, o que é ainda pior, uma prática não adotada pela imensa maioria dos 7 bilhões de pessoas que hoje povoam a superfície da Terra. A maioria ainda mantém como verdades absolutas suas ideias pessoais sobre crenças religiosas, sobre a sexualidade, sobre os papéis sociais, sobre os papéis sociofamiliares de cada gênero, sobre a melhor ideologia política, a filosofia mais adequada à vida moderna etc. O maior problema disso, como eu já disse, é que não somos donos de nenhuma dessas ideias; elas é que se fazem donas de nós. Num mundo superpopuloso, onde tantos abraçam cegamente as mais conflitantes visões, o preconceito, o racismo, a misoginia, a impunidade dos pares e a condenação dos diferentes, dentre tantos outros males sociais, revelam-se apenas consequências previsíveis dessa postura acrítica e crédula. Infelizmente.
De O pior de cada um de nós, por Camilo Gomes Jr. - Bule Voador

Comentário de Nelson Cunha
O mundo que vemos não é exatamente assim. Tudo é interpretado.
Pois é sobre um mundo assim tão movediço que construímos nossas "sólidas convicções". Não dá mesmo vontade de rir? Se a vida é uma maravilhosa farsa, viver seriamente é entender que tudo não passa de uma enorme palhaçada.

04 janeiro, 2013

Reflexões sobre o papel da literatura

«O que é a literatura, no sentido mais corrente, mais vulgar da palavra? Não é mais do que o mundo da eloquência, dos lugares-comuns, das frases redondas, das pessoas respeitáveis que em sua juventude observaram a vida e que, depois, uma vez atingida a fama, se entrincheiraram nas abstrações, nas cantilenas e nos raciocínios.» Boris Pasternak

«Creio que a literatura será sempre animada por um movimento de fuga vanguardista em relação ao resto da sociedade. Ela terá sempre um ambíguo papel de expressão do mal-estar ou da infelicidade social, sempre que esse mal-estar exista e, ao mesmo tempo, terá um papel utópico, de figuração de certas utopias. Ainda que o mundo esteja historicamente alienado, a literatura terá essa dupla função.» Roland Barthes

«Ignoro se a música sabe desesperar da música e se o mármore desespera do mármore, mas a literatura é um arte que sabe profetizar o tempo em que terá emudecido, encarniçar-se contra a própria virtude, enamorar-se da própria dissolução e cortejar o seu fim.» Jorge Luis Borges

«Evidentemente que se pode escrever sem necessidade de nos interrogarmos sobre as razões por que escrevemos. Um escritor, que contempla como sua caneta desenha as letras, possui pelo menos o direito de a deixar em suspenso para lhe dizer: Detém-te! Que sabes acerca de ti? Com que fim continuas avançando? Como não te dás conta de que tua tinta não deixa vestígios, que avanças com toda a liberdade, embora no vazio, que se não tropeças com nenhum obstáculo é porque nunca abandonaste o ponto de partida? E, no entanto, escreves: escreves sem descanso, descobrindo-me o que eu te dito e revelando-me o que eu sei. Os outros, ao ler, te enriquecem com o o que te tiram e te dão o que tu lhes ensinas. Agora, o que tu não fizeste, tu o fizeste; o que não escreveste, está escrito: estás condenada ao indelével, ao inapagável.» Maurice Blanchot

Comentário
A literatura no sentido mais amplo como você expôs é fascinante. Letra a letra, palavra a palavra, oração a oração... É como degustar o prato favorito.
O escritor Jorge Luis Borges: era mais fácil achá-lo absorto numa biblioteca do que em casa, não obstante a grande deficiência visual.
Recentemente, um amigo falou-me que os norte-americanos se debruçam nos livros de Machado de Assis para analisá-los. Woody Allen elogiou as obras de Machado, considerando-as de vanguarda.
Quem ama escrever tem um encontro com o divino definitivamente - dia a dia!

20 maio, 2011

Reflexões sobre a dor

  • "O homem é uma máquina feita expressamente para a dor; só lhe deram cinco sentidos para o gozo e todo o corpo para o sofrimento." Miguel Couto
  • "... que a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada no membro que já perdi." Chico Buarque
  • O Marquês de Sade contribuiu para a medicina com unguentos de forte poder cicatrizante. Foram por ele inventados para serem aplicados depois das sessões de flagelação. Um anônimo
  • "Suporta-se com paciência a cólica do próximo." Machado de Assis
  • "Dor, alegria das glândulas do choro..." Augusto dos Anjos
  • "Toda a dor quer ser contemplada, senão não será sentida." Alain
  • "A dor é tão velha que pode morrer, olê, olê, olê, olá." Chico Buarque
  • Ninguém entende tanto de dor quanto os mineiros. Querem as provas? Dores de Campos, Dores de Guanhães, Dores do Indaiá, Dores do Turvo e Doresópolis. PG

01 maio, 2010

Dia do Trabalho. Três reflexões


  1. Tudo o que vale a pena ser feito merece e exige ser bem feito. Philip Chesterfield
  2. Tudo pode ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples. Einstein
  3. As pessoas esquecerão quão rápido você fez um trabalho, mas sempre lembrarão quão bem você o fez. Howard Newton

09 outubro, 2007

Lados

Algumas reflexões sobre o importante assunto:
Tudo tem lados. E o avesso não deixa que haja exceção à regra.
Os pólos também são lados, só que radicais.
No tempo do LP havia o lado B, que ninguém ouvia. Foi o CD – que não tem A nem B – que acabou com esse déficit de audição.
A fatia de pão tem dois lados. Com relação à manteiga: um é com, outro é sem. Mas, quando a fatia cai no chão, é sempre com o lado com. Pesquisadores estudam.
Eles também estudam porque a barata ao morrer é monótona. Na escolha do lado que vai exibir no velório.
O rio com seus dois lados. E Guimarães Rosa ainda vivia a falar de uma terceira margem.
A lua com seu lado escuro. Às claras, depois que a ciência espacial fez a devassa.
E, para finalizar estas reflexões, aqui cabe um pensamento de um guru local, Augusto Pontes:
“Estou do seu lado, mas não me olhe de banda.”