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10 outubro, 2025

Vida que segue

ah, vida que segue
sem ao menos apressar
o passo de um jegue
(haicai)
A expressão "vida que segue" em língua portuguesa é comumente usada para transmitir a ideia de que, apesar dos desafios, dificuldades ou mudanças, a vida continua e é preciso seguir em frente. Ela carrega um sentido de adaptação às circunstâncias, muitas vezes sugerindo que não há como parar o fluxo natural da vida mesmo diante das adversidades.
Life goes on (inglês), la vida sigue (espanhol), la vie continue (francês), la vita va avanti (italiano), das Leben geht weiter (alemão) etc. Essas expressões mostram que a ideia da "vida que segue" é universal, presente em diferentes culturas e idiomas, sempre carregando um sentido de resiliência e aceitação do fluxo natural da vida.
Ah, a "vida que segue"! É como se o universo dissesse: "Olhe, meu amigo, hoje não é seu dia, mas o show precisa continuar. E você está escalado para o papel principal."
Ela simplesmente avança, arrastando você junto — como uma esteira rolante que não tem botão de parar e que, de vez em quando, joga um obstáculo em seu caminho só para ver você dançar.
Mas a verdade é que a melhor estratégia é entrar na dança. Aceitar que alguns dias vão ser tão absurdos que virarão histórias para contar no happy hour. No grande esquema das coisas, um pé na jaca que acontece hoje e pode virar anedota amanhã.
A vida que segue é aquela mestra sarcástica que lhe ensina todos os atos de pura rebeldia existencial.
Vida que segue... era o bordão com que João Saldanha pontuava seus artigos publicados na imprensa brasileira.
É o título do CD e DVD de Zeca Pagodinho, lançado em 2013, para comemorar os 30 anos de carreira do cantor.
Recomeços... e assim a nossa vida segue... se aperfeiçoando sempre e edificando nossa essência a cada superação!
A expressão volta e meia aparece em poemas, títulos de contos e crônicas , romance e até mesmo no prefácio deste livro ("Brilhos"). Reforçando sua carga emocional e filosófica, e remetendo à ideia de algo que persiste e segue. Assim como a vida.
A vida que segue? Sim, a vida consegue. E eu sigo junto.
Paulo Gurgel

29 agosto, 2023

Dog/ma

Do prefácio de Marco Lucchesi para "A Mandíbula de Caim", de Edward Mathers (editora Intrínseca):
"O espetáculo começa quando você chega. Só depois é que abrem as cortinas.
Para uma ideia da paisagem, cito o verbete "dogma" do Etimologiário de Maria Sebregondi:
"s.m.(do ingl. dog: cachorro) - irrefutável verdade canina. As trocas e as metáteses entre etologia e teologia revelam que os cães têm indiscutivelmente razão: o cão é o espelho de deus (dog/god).
A que horas marcamos nosso encontro, aqui dentro, meu cúmplice-leitor, colega de aventura?"
Metátese é a transposição de fonemas na mesma sílaba dentro de um vocábulo. Ex.: semper e sempre.
O texto é de Marco, eu só acrescentei a ilustração.
Será que o cachorro está latindo para a árvore errada? (PGCS)

26 janeiro, 2018

Do prefácio ao posfácio

"Prefácio é aquilo que se escreve depois, se imprime primeiro, e não se lê nem antes nem depois." ~ Dino Segrè

- Putzgrila, Pitigrilli!
Putzgrila (ou putsgrila) é uma abreviação de "puta que pariu, isso grila". Muito usado pela juventude, nas décadas de 1960 e 70, para expressar susto ou admiração quando um assunto complexo era comentado numa roda.
Esta palavra foi provavelmente inventada por algum colaborador de "O Pasquim".
Já Dino Segrè, também conhecido pelo pseudônimo Pitigrilli, foi um jornalista e escritor italiano. Ele trabalhou nos principais jornais de sua época, tecendo comentários ácidos e humorísticos sobre a sociedade e os costumes. Exemplos:
  • Agradecidos são aqueles que ainda têm algo a pedir.
  • Para compreender os paradoxos é preciso ser inteligente, mas para segui-los é preciso ser estúpido.
  • Tudo deve ser discutido. Sobre isso não há discussão.
Ele afirmava que adotou este pseudônimo porque gostava de "colocar os pingos nos ii".

Sem crise. Isto aqui é um posfácio.

21 outubro, 2014

Prefácios interessantíssimos

O "prefácio interessantíssimo" é o prefácio de Mário de Andrade ao seu próprio livro Pauliceia Desvairada, considerado a base do modernismo brasileiro. O prefácio não fala do livro, mas sim de uma atitude geral perante a literatura. É uma espécie de manifesto poético, em versos livres. No início do prefácio, ele próprio denuncia a sua atitude. Depois de afirmar que "está fundado o Desvairismo", afirma que o seu texto é meio a sério, meio a brincar. O que lhe dá um caráter inconfundível de, por um lado, programa poético e, por outro, paródia. Assim o sério e o divertimento se misturam num todo sem fronteiras definidas. Repare-se, ainda, que é um texto muito assertivo, provocativo e polêmico, como é característico do Modernismo.
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Sobre um certo historiador
"Ele nunca completou a sua História de Éfeso, mas seu nome foi mencionado em vários prefácios." ~ W. Craddle

24 junho, 2014

As Bruxas do Século XX

(enviado por Fernando Gurgel)
Agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milênio, o que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial? Dois terços da humanidade passam fome para o terço restante superalimentar-se; além disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.
Ainda neste fim de século outro fenômeno está acontecendo: na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina.
Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva.
Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!
Extraído da Breve Introdução Histórica, de Rose Marie Muraro, ao "Malleus Maleficarum" ("O Martelo das Feiticeiras"), um livro escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger. A autora deste prefácio, a brasileira Rose Marie (falecida há 3 dias), foi escritora e líder feminista. Nasceu praticamente cega e sua personalidade singular deu-lhe força e determinação suficientes para tornar-se uma das mais brilhantes intelectuais de nosso tempo. É autora de mais de 40 livros e também atuou como editora em cerca de 1600 títulos, quando foi diretora da Editora Vozes.

23 agosto, 2008

Proemial (2ª parte)

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Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.

+

Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.

+

O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.

16 agosto, 2008

Proemial (1ª parte)

-
Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)

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O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.

+

Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.