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03 abril, 2023

Que horas são?

Essa pergunta simples provavelmente é feita com mais frequência hoje do que nunca. Em nossa sociedade de telefones celulares que disponibilizam relógios, a resposta nunca está mais do que a um olhar de distância, e assim podemos dividir nossos dias em incrementos cada vez menores para tarefas cada vez mais apertadas, confiantes de que sempre saberemos que são 19:02.

As revelações científicas modernas sobre o tempo, no entanto, tornam a questão infinitamente frustrante. Se buscarmos um conhecimento preciso do tempo, o indescritível infinitesimal do "agora" se dissolve em um bando disperso de nanossegundos. Limitadas à velocidade da luz e à velocidade dos impulsos nervosos, nossas percepções do presente esboçam o mundo como era um instante atrás — por mais que nossa consciência finja o contrário, nunca poderemos alcançá-lo. Aliás, são 19:03.

Mesmo em princípio, a sincronicidade perfeita nos escapa. A relatividade dita que, como um estranho xarope, o tempo flua mais devagar nos trens em movimento do que nas estações e mais rápido nas montanhas do que nos vales. A hora do nosso relógio de pulso ou da tela digital não é exatamente a mesma da nossa cabeça. São mais ou menos 19:04.

Nossas intuições são profundamente paradoxais. O tempo cura todas as feridas, mas também é o grande destruidor. O tempo é relativo, mas também implacável. Há tempo para todos os propósitos debaixo do céu, mas nunca há tempo suficiente. O tempo voa, rasteja e corre. Os segundos podem ser divididos e alongados. Como a maré, o tempo não espera por ninguém, mas em momentos dramáticos também fica parado. É tão pessoal quanto o ritmo do coração de alguém, mas tão público quanto a torre do relógio na praça da cidade. Fazemos o nosso melhor para conciliar as contradições. Parece que são 19:05.

E, claro, tempo é dinheiro. É o parceiro da mudança, o antagonista da velocidade, a moeda em que prestamos atenção. É o nosso bem mais precioso e insubstituível. No entanto, ainda dizemos que não sabemos para onde vai, e dormimos um terço dele, e nenhum de nós pode realmente explicar o quanto nos resta. Podemos encontrar 100 maneiras de economizar tempo, mas a quantidade restante, no entanto, diminui constantemente. Já são 19:06.

O tempo e a memória moldam nossas percepções de nossa própria identidade. Podemos nos sentir à mercê da história, mas também nos vemos como agentes do futuro com livre arbítrio. Essa concepção está perturbadoramente em desacordo com as idéias de físicos e filósofos, no entanto, visto que o tempo é uma dimensão como as do espaço, então ontem, hoje e amanhã são igualmente concretos e determinados. O futuro existe tanto quanto o passado; é apenas em um lugar que ainda não visitamos. Em algum lugar são 19:07.

"O tempo é a substância de que sou feito", escreveu o escritor argentino Jorge Luis Borges. "O tempo é um rio que me leva, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo". Esta edição especial da Scientific American (A Matter of Time) resume o que a ciência descobriu sobre como o tempo permeia e guia tanto nosso mundo físico quanto nosso eu interior. Esse conhecimento deve enriquecer a imaginação e fornecer vantagens práticas para quem espera vencer o relógio ou pelo menos manter-se em sintonia com ele. Agora são 19:08. Sincronizem seus relógios.

25 agosto, 2021

Taxa de reprovação

Um editorial em 1978 do Pensacola Journal, sobre a competência mínima em inglês e matemática, afirmava: 
"Afinal, se você aplicar o teste a quatro alunos e os quatro forem reprovados, é uma taxa de reprovação de 50 por cento."
Via

- O editor de então do Pensacola devia ser do tipo que não pensa e cola. Assim como eu sou do tipo que adora um  trocadilho.

30 maio, 2020

Se o mar pudesse escrever, o que nos diria?

No Japão, 30 de maio é o Dia do Lixo Zero. Nesse dia, a Tokyo News publicou em 2019 um editorial de página inteira intitulado "Plásticos flutuando em nossos oceanos" e destacou os efeitos devastadores dos plásticos na vida marinha.
Surpreendentemente, neste artigo, do próprio título à imagem e ao conteúdo, quase tudo não foi impresso em papel, mas "esculpido" na praia.
A escultura em areia foi concluída pelo artista Toshihiko Hosaka, que criou a enorme escultura em areia, com moradores locais e estudantes a ajudá-lo na praia de Ioka, na província de Chiba.
Demorou 11 dias para completá-lo, e mede 50 x 35 metros. O conteúdo do editorial diz: "O mar não fala, então vou falar por ele."
"Atualmente, a vida de muitos seres marinhos é perdida. O culpado é o plástico. Sacolas plásticas, garrafas plásticas, espuma plástica. ... Cerca de 8 milhões de toneladas de plásticos são descarregados diariamente em rios e oceanos ..."
"Os japoneses têm uma grande responsabilidade nisso, a produção de lixo per capita do Japão está em segundo lugar no mundo." Para corrigir esse problema, devemos observar atentamente o que está acontecendo no oceano. eles foram ignorados por causa da prioridade do crescimento econômico e das conveniências na vida cotidiana ".

CGTN em espanhol, 08/06/2019

21 janeiro, 2013

A herança da casa-grande

Mino Carta
Não quero que os ricos chorem, dizia o líder do PSD sueco, Olof Palme, quero é que os pobres riam. Palme, social-democrata autêntico, foi primeiro-ministro e crente denodado da igualdade social. Sublinho autêntico para que não seja confundido com nossos social-democratas de fancaria.
Palme, assassinado por um demente, é um herói de outro tempo, quando a religião do deus mercado ainda não vingara, dois impérios dividiam a terra e as esquerdas da Europa Ocidental contribuíam de forma determinante para o progresso dos seus povos. Não existiam oligarquias financeiras para mandar mais que os governos nacionais e anátemas eram lançados contra o chamado “capitalismo selvagem”.
Atenção! Embora pareça, esta cena não é dos dias de hoje
É do conhecimento até do mundo mineral que a crise dos dias de hoje foi deflagrada pela aplicação dos mandamentos neoliberais, que ela não poupa o Brasil e que os remédios aviados até agora pelos governos do ex-Primeiro Mundo mostram-se incapazes de combater a origem do mal. Quando não cuidam, abertamente, de proteger quem provocou o desastre, e mesmo de fortalecer-lhe o poder.
Vivemos o tempo dos super-ricos e dos superpobres. A diferença entre uns e outros tornou-se voragem infinda, abismo sem fundo. O Brasil também conta com seus super-ricos, arrolados nas listas anualmente propostas ao espanto global. Esta privilegiadíssima tigrada dispõe de fortunas calculáveis em bilhões e não é fácil entender como se deu esta frenética, desenfreada multiplicação de dinheiro, enquanto bilhões de seres humanos morrem de fome.
Sem pretender parafrasear Olof Palme, eu diria que os super-ricos me incomodam muito menos do que os aspirantes a super-ricos. Medram no Brasil, em diversos patamares da escada social, burgueses e burguesotes de diversos calibres. Classes A e B1, digamos, sem excluir de pronto os anseios recônditos de inúmeros remediados. Pergunto: que ricões, ricos, riquinhos e sonhadores de riqueza são estes?
[...]
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23 novembro, 2012

Por um tempo novo e justo

O "mensalão" tucano
por Mino Carta
A mídia nativa entende que o processo do “mensalão” petista provou finalmente que a Justiça brasileira tarda, mas não falha. Tarda, sim, e a tal ponto que conseguiu antecipar o julgamento de José Dirceu e companhia a um escândalo bem anterior e de complexidade e gravidade bastante maiores. Falemos então daquilo que poderíamos definir genericamente como “mensalão” tucano. Trata-se de um compromisso de CartaCapital insistir para que, se for verdadeira a inauguração de um tempo novo e justo, também o pássaro incapaz de voar compareça ao banco dos réus.
A tigrada atuou impune por uma temporada apinhada de oportunidades excelentes. Quem quiser puxar pela memória em uma sociedade deliberadamente desmemoriada, pode desatar o entrecho a partir do propósito exposto por Serjão Motta de assegurar o poder ao tucanato por 20 anos. Pelo menos. Cabem com folga no enredo desde a compra dos votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, até a fase das grandes privatizações na segunda metade da década de 90, bem como a fraude do Banestado, desenrolada entre 1996 e 2002.
Um best seller intitulado "A Privataria Tucana" expõe em detalhes, e com provas irrefutáveis, o processo criminoso da desestatização da telefonia e da energia elétrica. Letra morta o livro, publicado em 2011, e sem resultado a denúncia, feita muito antes, por CartaCapital, edição de 25 de novembro de 1998. [...]

Prossiga lendo em CartaCapital (editorial de 09/11/2012)

Um país singular
por Mino Carta
A mídia nativa celebra com euforia futebolística a condenação de José Dirceu e companhia. Não cabe surpresa, tampouco discutir a importância do evento e a dimensão das penas. Limito-me a perguntar aos meus caridosos botões como conseguirá José Genoino pagar a multa de 468 mil reais. Muito dinheiro para um remediado à beira da pobreza, e esta é verdade factual. Quem sabe o Supremo pudesse ter poupado da multa o ex-presidente do PT para cobrar em dobro Dirceu, e até mais: o ex-chefe da Casa Civil sabe como e onde arrumar recursos.
Não custa lembrar que, conforme a afirmação de CartaCapital formulada desde o começo do enredo precipitado pela denúncia de Roberto Jefferson, o “mensalão” não foi provado. Neste espaço, mais uma vez, ponderei que outros crimes poderiam vir à tona, tão graves quanto. Nem por isso, aderimos às celebrações encenadas pelos jornalões como se a condenação de Dirceu e companhia representasse a vitória da mídia.
Entre as retumbantes primeiras páginas da terça 13, chama a atenção a da Folha de S.Paulo, com seu editorial desfraldado como uma bandeira. Aí se lê que o desfecho do escândalo resulta “das revelações da imprensa crítica”. Pois é, crítica. Quando convém. Somente agora a Folha se abala a recomendar que outros casos “sem demora” acabem em juízo, “a começar pelo das relações de Marcos Valério com o PSDB de Minas Gerais”. Santas palavras. Mas, por que não foram pronunciadas no momento certo, ou seja, quando os tucanos reinavam?
Não há mazela dos tempos do governo FHC que não tenha sido noticiada por CartaCapital. E o tucano amiúde arrastou suas asas na lama. Compra de votos a bem da reeleição de FHC, caso Banestado, o assalto da privataria. Sem contar o escabroso entrecho que se desenrolou em torno da desvalorização do real logo após a posse do príncipe dos sociólogos, enfim reeleito à sombra da bandeira da estabilidade. E o Brasil quebrou. Em que deram as “revelações” de CartaCapital? Em nada, absolutamente nada, recebidas pelo silêncio uivante da mídia nativa.

Prossiga lendo em CartaCapital (editorial de 16/11/2012)

Leandro Fortes: Trâmite do mensalão tucano desafia a noção de que o Brasil mudou