O que fez de você você
Cada um de nós é uma constelação casual de elementos forjados em estrelas mortas há muito tempo reunidas pela gravidade, que pode ser a outra palavra para Deus — a mais fraca das quatro forças fundamentais, mas o grande compactador cósmico que fez os primeiros átomos se unirem em um centro comum para formar a primeira estrela: uma imensa bola de gás, no centro da qual havia uma esfera de hidrogênio que eventualmente atingiu pressões de milhões de atmosferas e aqueceu até milhões de graus. Essas condições extremas desencadearam um novo fenômeno no cosmos — as primeiras reações de fusão nuclear : quando dois átomos de hidrogênio colidem com imensa força, nêutrons são transferidos de um núcleo para o outro, tornando alguns átomos maiores. Após uma série dessas colisões, um núcleo com dois prótons se forma e o segundo elemento — hélio — nasce. À medida que a estrela se inflama, iluminando a escuridão austera do espaço-tempo puro ao seu redor, ela continua queimando seu hidrogênio para produzir mais hélio. A fusão acelera, forjando carbono, depois neônio, depois oxigênio e assim por diante na tabela periódica, transformando a estrela em uma espécie de cebola com camadas de reações de fusão.
A maioria dos primeiros vinte e seis elementos da tabela periódica — os elementos que compõem quase tudo o que podemos tocar e ver — foram criados pela fusão nuclear em estrelas individuais. Se você pudesse marcar qualquer átomo individual em seu corpo e segui-lo para trás no tempo, por toda a outra matéria que ele compôs antes de se tornar seu — o corpo de sua mãe, a comida que sua mãe comeu, o solo em que essa comida cresceu, os estratos geológicos moídos pelos oceanos para fazer esse solo — você poderia rastreá-lo até o núcleo de uma estrela específica que viveu e morreu bilhões de anos atrás: um átomo real que agora está em você, tendo prevalecido sobre as infinitas probabilidades pelas quais ele poderia ter acabado em outra pessoa.
A essa máquina de acaso de Rube Goldberg (*) você deve toda a sua particularidade — altere qualquer parte dessa genealogia cósmica, e você teria acabado como outra pessoa.
Maria Popova, The Marginalian
N. do E.
O acaso é organizador mas precisa de tempo, muito tempo.
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03 novembro, 2025
11 janeiro, 2024
A gravura Flammarion
Uma das mais icônicas ilustrações da visão de mundo medieval é uma obra da modernidade.


O autor desta gravura é desconhecido. No entanto, apareceu pela primeira vez no livro "L’atmosphère: météorologie Populaire" (1888), do astrônomo francês Camille Flammarion (1842–1925). Aparece no capítulo intitulado A forma do céu. A legenda diz "um missionário da Idade Média conta que encontrou o lugar onde o céu e a terra se tocam…".
Na gravura, um homem ajoelhado, com trajes de peregrino — uma longa túnica, carregando um cajado na mão esquerda e de pé na beira da terra — atravessa a abóbada celeste. Sua cabeça, os ombros e o braço direito cruzam o firmamento estrelado do céu e vê além dele um mundo fantástico de nuvens, fogos e sóis. Aparece o ofanim, a roda dentro de uma roda, conforme descrito em uma visão do profeta bíblico Ezequiel 1:15-21.
O sol e a lua estão sob a abóbada terrestre, ou o firmamento. Uma árvore solitária (a árvore da vida?) está atrás do peregrino. No fundo da Terra, vemos várias cidades às margens de lagos.
Para além da abóbada, há vários sóis, camadas de esferas cristalinas, uma possível representação da esfera empírea, além do mencionado ofanim.
Essa ilustração, ainda que do século XIX, resume a cosmovisão dominante no Ocidente cristão até a modernidade. Era uma síntese dos pensamentos de Aristóteles em Ptolomeu, com interpretações tardias da Bíblia, além de relatos de viagens astrais. A terra não seria exatamente um planeta (o termo hebraico eretz não dava nome ao nosso planeta, mas significava terra firme ou solo), mas o centro do universo aonde todos os objetos se direcionariam. Várias camadas sólidas concêntricas serviriam de trilhos ou tinham em si encrustadas os astros.
Flammarion trabalhou no Observatório Juvissy, ao sul de Paris, e escreveu vários livros sobre ciência popular. Durante sua juventude, ele foi aprendiz de gravador para impressão, então é provável que ele tenha feito ou supervisionado a gravura para esta ilustração. Erroneamente chamada de xilogravura, trata-se na verdade de uma gravação burilada em madeira.
Na gravura, um homem ajoelhado, com trajes de peregrino — uma longa túnica, carregando um cajado na mão esquerda e de pé na beira da terra — atravessa a abóbada celeste. Sua cabeça, os ombros e o braço direito cruzam o firmamento estrelado do céu e vê além dele um mundo fantástico de nuvens, fogos e sóis. Aparece o ofanim, a roda dentro de uma roda, conforme descrito em uma visão do profeta bíblico Ezequiel 1:15-21.
O sol e a lua estão sob a abóbada terrestre, ou o firmamento. Uma árvore solitária (a árvore da vida?) está atrás do peregrino. No fundo da Terra, vemos várias cidades às margens de lagos.
Para além da abóbada, há vários sóis, camadas de esferas cristalinas, uma possível representação da esfera empírea, além do mencionado ofanim.
Essa ilustração, ainda que do século XIX, resume a cosmovisão dominante no Ocidente cristão até a modernidade. Era uma síntese dos pensamentos de Aristóteles em Ptolomeu, com interpretações tardias da Bíblia, além de relatos de viagens astrais. A terra não seria exatamente um planeta (o termo hebraico eretz não dava nome ao nosso planeta, mas significava terra firme ou solo), mas o centro do universo aonde todos os objetos se direcionariam. Várias camadas sólidas concêntricas serviriam de trilhos ou tinham em si encrustadas os astros.
Flammarion trabalhou no Observatório Juvissy, ao sul de Paris, e escreveu vários livros sobre ciência popular. Durante sua juventude, ele foi aprendiz de gravador para impressão, então é provável que ele tenha feito ou supervisionado a gravura para esta ilustração. Erroneamente chamada de xilogravura, trata-se na verdade de uma gravação burilada em madeira.
Leonardo Marcondes Alves, Ensaios e Notas
09 junho, 2018
Stephen Hawking e sua supercadeira
Stephen William Hawking (8 de janeiro de 1942, Oxford, UK - 14 de março de 2018, Cambrige, UK) foi um físico teórico, cosmólogo e um dos mais consagrados cientistas das últimas décadas. Doutor em cosmologia, foi professor lucasiano de matemática na Universidade de Cambridge, na qualidade de professor lucasiano emérito, um posto que foi ocupado por Isaac Newton, Paul Dirac e Charles Babbage. Também foi diretor de pesquisa do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica e fundador do Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge.
Hawking era portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa incurável que paralisa os músculos do corpo sem, no entanto, atingir as funções cerebrais. A doença foi detectada quando ele tinha 21 anos. Em 1985, Hawking teve que se submeter a uma traqueostomia após ter contraído pneumonia e, a partir de então, utilizou um sintetizador de voz para se comunicar. Gradualmente, ele perdeu o movimento dos seus braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, de modo que sua mobilidade ficou praticamente nula. Em 2005, Hawking usava os músculos da bochecha para controlar o sintetizador e, em 2009, já não podia mais controlar a sua cadeira de rodas elétrica.
Outros cientistas criaram novas formas de tecnologia para evitar que o físico sofresse da "síndrome do encarceramento", ajudando a traduzir os pensamentos de Hawking em fala. A última versão desenvolvida pela Intel e cedida a Hawking em 2013, rastreava o movimento dos olhos do cientista para gerar palavras, embora ele afirmasse em seu site oficial (www.hawking.org.uk) que ainda prefiria usar o "cheek tracking" (rastreamento da bochecha) para utilizar a interface ACAT (um sistema também desenvolvido pela Intel).
Hawking se descrevia como ateu. Em algumas ocasiões, usou a palavra "Deus" em seus livros e discursos, mas, segundo ele próprio, no sentido metafórico e relativo. Hawking acredita que "o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por um Criador, mas um Criador não intervém para quebrar essas leis". Ele comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo que "há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".
Apesar de confinado a uma cadeira de rodas e incapaz de falar sem o auxílio de um sintetizador de voz (que o deixava "com um sotaque americano"), Stephen Hawking realizou notáveis contribuições no campo da cosmologia (o estudo do universo como um todo) e da gravidade quântica, além de escrever as 262 páginas do maior "best-seller" da ciência para leigos: "Uma breve história do tempo". WIKI
Na Genno e Scientia: Como Hawking escrevia e pronunciava seus discursos
1. Um tablet era instalado em um suporte de metal acoplado a um dos braços da cadeira.
2. No menu havia termos prontos, como "sim", e uma lista de palavras em ordem alfabética, além da função "soletrar".
3. Um sensor nos óculos captava os movimentos da bochecha usados para escolher as frases.
4. O texto completo era enviado ao sintetizador, que criava a voz simulando entonação, segundo Sam Blackburn, assistente de Hawking. O som saía atrás do suporte do computador.
5. Para palestrar, ele escrevia o discurso antes. Na hora da participação, envia ao sintetizador uma frase por vez, o que deixava a fala mais natural.
No blog EM: Stephen Hawking está fora de controle
Hawking era portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa incurável que paralisa os músculos do corpo sem, no entanto, atingir as funções cerebrais. A doença foi detectada quando ele tinha 21 anos. Em 1985, Hawking teve que se submeter a uma traqueostomia após ter contraído pneumonia e, a partir de então, utilizou um sintetizador de voz para se comunicar. Gradualmente, ele perdeu o movimento dos seus braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, de modo que sua mobilidade ficou praticamente nula. Em 2005, Hawking usava os músculos da bochecha para controlar o sintetizador e, em 2009, já não podia mais controlar a sua cadeira de rodas elétrica.
Outros cientistas criaram novas formas de tecnologia para evitar que o físico sofresse da "síndrome do encarceramento", ajudando a traduzir os pensamentos de Hawking em fala. A última versão desenvolvida pela Intel e cedida a Hawking em 2013, rastreava o movimento dos olhos do cientista para gerar palavras, embora ele afirmasse em seu site oficial (www.hawking.org.uk) que ainda prefiria usar o "cheek tracking" (rastreamento da bochecha) para utilizar a interface ACAT (um sistema também desenvolvido pela Intel).
Hawking se descrevia como ateu. Em algumas ocasiões, usou a palavra "Deus" em seus livros e discursos, mas, segundo ele próprio, no sentido metafórico e relativo. Hawking acredita que "o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por um Criador, mas um Criador não intervém para quebrar essas leis". Ele comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo que "há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".
Apesar de confinado a uma cadeira de rodas e incapaz de falar sem o auxílio de um sintetizador de voz (que o deixava "com um sotaque americano"), Stephen Hawking realizou notáveis contribuições no campo da cosmologia (o estudo do universo como um todo) e da gravidade quântica, além de escrever as 262 páginas do maior "best-seller" da ciência para leigos: "Uma breve história do tempo". WIKI
Na Genno e Scientia: Como Hawking escrevia e pronunciava seus discursos
1. Um tablet era instalado em um suporte de metal acoplado a um dos braços da cadeira.
2. No menu havia termos prontos, como "sim", e uma lista de palavras em ordem alfabética, além da função "soletrar".
3. Um sensor nos óculos captava os movimentos da bochecha usados para escolher as frases.
4. O texto completo era enviado ao sintetizador, que criava a voz simulando entonação, segundo Sam Blackburn, assistente de Hawking. O som saía atrás do suporte do computador.
5. Para palestrar, ele escrevia o discurso antes. Na hora da participação, envia ao sintetizador uma frase por vez, o que deixava a fala mais natural.
No blog EM: Stephen Hawking está fora de controle
03 janeiro, 2013
O Juízo Final
Para Marcelo Gurgel
O blogue In The Dark apresenta uma metáfora para a física teórica moderna:"Esta é a pintura que eu costumo usar na introdução de minha fala sobre cosmologia. Eu gosto de usar 'O Juízo Final' (Das letzte Gericht), de Hieronymus Bosch, para ilustrar os meus sentimentos sobre o modelo cosmológico padrão.
A parte de cima da pintura representa a cosmologia da concordância. Claramente, mostra um cosmólogo eminente, cercado por pesquisadores de pós-doutorado. Tudo parece estar em harmonia celestial e tomado por um brilho radiante de autossatisfação. As trombetas representam as várias formas de cobertura exagerada da imprensa.
Mas, se você insistir em olhar a cena toda, sob uma perspectiva adequada, vai perceber que há uma enorme quantidade de coisas acontecendo lá embaixo, que não são tão agradáveis nem fáceis de interpretar. Nessa parte de baixo, há inúmeros infelizes em condições miseráveis e sofrendo tormentos inimagináveis, os quais, obviamente, são os estudantes de pós-graduação. Quanto à grande faca, visível no canto inferior direito, simboliza perfeitamente a ameaça dos cortes orçamentários.
E o ponto principal desse modelo da cosmologia da concordância baseia-se em um fundamento bastante estranho: ninguém entende o que a matéria e a energia escuras são, por exemplo..."
Traduzido por PGCS
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