Ao microscópio, o novo coronavírus parece um mangual, a bola metálica com pontas agudas usada como arma durante a Idade Média. Mas, dando zoom numa destas espículas do vírus, (1) a imagem é ainda mais horripilante. (2) No laboratório do bioquímico norte-americano Greg Bowman, os cientistas se referem a esta proteína protuberante como "o Demogorgon", (3) o monstro da série Stranger Things: uma criatura com corpo humanoide e a cabeça como uma planta carnívora que devora a sua presa.
Fonte:ccu cgg cgg gca: as doze letras que mudaram o mundo, El País
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21 maio, 2020
14 maio, 2020
Eu sou uma cientista louca
A ilustração acima (legendada para o português) não faz parte do artigo proximal.
por Kate Marvel * - Driled News
Já ouvi isso algumas vezes, de um jornalista, um amigo da família, um vizinho: você deve estar feliz com tudo isso. A implicação é que, como sou cientista do clima, devo estar empolgada com esse período de atividade econômica reduzida e emissões de efeito estufa. A Terra está se curando, eles dizem. A natureza está voltando. Por que eu não ficaria feliz com isso?Amigos, definitivamente não estou feliz. Eu nem estou triste. O que estou, mais do que tudo, é zangada.
Estou com raiva da própria idéia de que possa haver um lado positivo nisso tudo. Não há. O dióxido de carbono tem uma vida tão longa na atmosfera que uma pequena redução nas emissões não será páreo para o aumento esmagador que ele vem apresentando desde o início da Revolução Industrial. Todo esse sofrimento não tornará o planeta mais frio. Se a qualidade do ar está melhor agora, se menos pessoas morrem por inalar poluição, esse não é um desenvolvimento bem-vindo, mas sim uma acusação de como as coisas estavam antes.
Estou com raiva dos políticos por criarem esse status quo. Estou com raiva por terem ignorado os cientistas e colocado suas próprias carreiras ou bolsos à frente da sobrevivência de seus cidadãos. É irritante ver a ignorância deliberada e cínica: atacar modelos (como se existisse alguma ciência não construída sobre modelos, simples ou complexos) e armar incertezas. Um modelo epidemiológico, como um modelo do sistema climático, é uma maneira de explorar diferentes futuros e os impactos de diferentes escolhas. É uma ferramenta, não uma bola de cristal. Mas o cerne de todos os modelos úteis reside em algo verdadeiro: os fatos inevitáveis de que massa e energia são conservadas, de que um gás de efeito estufa retém o calor e de que um vírus pode transformar uma célula hospedeira em uma fábrica para autorreplicação. Desinformação, rumores e ódio podem se tornar virais, mas nada é melhor para se espalhar do que o próprio vírus.
Também estou zangada com os cientistas, ou pelo menos com as instituições que os empregam. Estou com raiva de uma cultura da precariedade e do medo que torna os cientistas tímidos, obedientes e relutantes em falar a verdade ao poder. Fico com raiva porque falar a verdade a alguém, poderoso ou não, é desencorajado, a menos que resulte em uma publicação, concessão ou outra recompensa que aumenta o currículo. Como os cientistas podem ser ouvidos se estamos com muito medo de levantar a voz?
Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou com raiva da implicação de que "nós" somos culpados. Há uma narrativa ruim, mas persistente, de que as mudanças climáticas e as pandemias são causadas não por gases e vírus do efeito estufa, mas pela natureza humana. Somos ávidos por comida, abrigo, aventura, autorrealização, contato humano e - diz essa narrativa - devemos ser punidos por nossos pecados. Mas a situação atual - morte, pobreza, solidão - é um plano ineficaz para soluções climáticas. Nunca seríamos capazes de sacrificar nosso caminho para sair da mudança climática, especialmente não sendo nas costas das pessoas que historicamente fizeram a maior parte do sacrifício. Existe um sistema entrincheirado que extrai o CO2 do solo e o bombeia para a atmosfera, que resulta não da maldade humana inerente, mas das escolhas de alguns humanos com poder. Precisamos construir coisas: turbinas eólicas, painéis solares, transporte público, cidades planejadas, sociedades mais justas. Nós não precisamos de purificação. Não precisamos de absolvição. Nós precisamos trabalhar.
Eu tenho medo de me deixar sentir raiva, porque sou cientista. Devemos ser objetivos, impedir que as emoções nublem nosso julgamento. Mas me parece pouco científico fingir que algo que existe claramente não existe, e não tenho certeza de que mentir sobre nossos sentimentos de alguma forma nos torne mais honestos. Eu li muita literatura britânica para acreditar que reprimir emoções levará a um resultado saudável para qualquer pessoa.
Também relutei em ficar brava publicamente por causa de quem eu sou. Eu quero ser apreciada e aceita. Aprendi a me tornar pequena e agradável, a usar "eu sinto" em vez de "eu sei", mesmo quando discuto soluções para equações matemáticas. Eu conheço o léxico para mulheres zangadas: amarga, difícil, vadia. Mas há uma diferença entre o ressentimento pequeno e insular que brilha no escuro e o tipo de fúria iluminadora que ilumina o caminho para fora do túnel.
Essa é a fúria que sinto. É essa raiva incandescente, brilhando como um farol nos tempos sombrios, iluminando o caminho para algo melhor.
* Kate Marvel é uma cientista climática do Instituto Goddard da NASA de Estudos Espaciais e da Universidade de Columbia. Tradução PGCS
14 de maio: Dia Internacional do Clima
05 maio, 2020
Fazendo o seu melhor
Fernando Gurgel Filho
Um nosso amigo estava com voo marcado para este período em que entramos de isolamento por causa do coronavírus. Recebeu o célebre comunicado de cancelamento: "Seu voo foi cancelado, confira suas opções." Como todo bom consumidor otário, foi conferir "suas opções". Ligou para a companhia. Uma hora de musiquinha e uma voz do além listou as tais "opções". Não está explícito, mas as opções existentes pareciam dizer: digite 1 - para se desesperar; digite 2 - para gritar bem alto, "Mããããããêêêêêê”, mesmo sabendo que ela morreu; digite 3 - para xingar, chorar e deixar por isso mesmo; digite 4 – para aceitar que não tem opção nenhuma, tem que escolher o que não lhe interessa; e, depois de uma hora de "opções" digite 99999999 - se quiser mandar todo mundo à pqp; ou aguarde para falar com uma de nossas atendentes. Mais uma hora de musiquinha e a voz do além informa: "Sua ligação é muito importante para nós. Logo você será atendido. Você é o número 524 na fila de espera. Não desligue, por favor". Se o pobre consumidor ainda não morreu, só resta desligar aquilo. Mesmo porque, não falam NUNCA em devolução do seu suado dinheirinho.Então, se, em épocas normais, você já não representa muita coisa como consumidor, em épocas de crise, quando as relações de consumo viram um pesadelo, a única opção válida é relaxar e tentar fazer o seu melhor, mesmo que o seu melhor não seja lá melhor do que sempre foi: péssimo.
Mas, em isolamento, o nosso amigo se superou em falta de habilidades. Não resolveu o problema do voo e ficou com os seus problemas costumeiros. Como é meio hipocondríaco, se alguém falar em falta de ar ele já precisa urgentemente de um tubo de oxigênio. E os telejornais somente falam em coronavírus, problemas pulmonares, número de infectados, número de mortos etc. E ele, ainda por cima, é meio elétrico, não pode ficar parado um instante. E todos conhecem sua habilidade para fazer as coisas: zero.
Não sei como resistiu tanto tempo, mas no nono ou décimo dia de isolamento social, ele já começou a espirrar, o nariz entupiu e a tosse veio muito forte. Fez uma ligação para seu otorrino de confiança. Este receitou antialérgico, antibiótico e um outro remédio. Falou para NÃO se preocupar E enfatizou bem o "NÃO". Nem febre ele tinha. Aquilo era apenas sua costumeira crise de sinusite. Mas o nosso amigo não se conformou. Achou que estava morrendo. Ao anoitecer, na cama, chamou a esposa: - Benzinho, chama o filhote. Vou passar todas as nossas senhas, de cartão/banco/etc., e orientá-lo como deve proceder. Ele vai precisar disso para resolver as coisas na nossa ausência.
- E você vai pra onde, posso saber?, quase gritou a esposa, já nervosa com a situação.
- Pro saco, ironizou, tossindo. E você também, pois o vírus é muito contagioso e estamos sempre juntos. Melhor deixar tudo resolvido e facilitar a vida de quem fica.
- Ora, vá se catar!, berrou a esposa, amanhã você resolve isso. E saiu batendo a porta porque sabia que, no outro dia, ele já tinha esquecido aquela maluquice. Realmente, com os remédios a sinusite melhorou e tudo voltou ao normal. Ou quase.
Já muito melhor, resolveu cortar o cabelo do filhote, que estava trancado em casa com eles, sem aula. Procurou um tutorial na internet: "Como cortar cabelo masculino em casa". Apareceu um monte de opção. Achou fácil. Basicamente, bastava ter uma tesoura, um pente e alguma habilidade. Que lhe faltava, mas achava que lhe sobrava.
- À tarde vamos cortar esta juba, falou, animado, para o moleque.
Cortou. Até que não foi muito difícil, mesmo. Quase destruiu o cabelo do moleque. Que, após o corte, na frente do espelho, chorava e urrava de ódio: - Mããããããêêêêêê, vem ver o que meu pai fez no meu cabelo!
Naquela pandemia a casa virou um pandemônio. E não adiantava querer melhorar o trabalho. O corte mal feito só piorava. O jeito foi deixar como estava:
- Desculpe, filhote. Tentei fazer o meu melhor. Não deu. Mas o cabelo cresce rápido e antes de voltarem as aulas você vai ao barbeiro. Eu prometo.
Depois de todo mundo chorar juntos, abraçados, tudo voltou ao normal. Ou quase, pois o nosso amigo não sossega dentro de casa. Alguma coisa nos diz que, na tentativa de fazer o seu melhor, sua próxima ação será ainda pior.
04 abril, 2020
O isolamento verbal do novo coronavírus
FOLHAPRESS - Nesta terça-feira (31), o ditador Gurbanguly Berdymukhamedov (foto) baniu o uso da palavra coronavírus no Turcomenistão. A proibição vale tanto para publicações oficiais como para a imprensa independente - que quase não existe por lá - e até mesmo para os cidadãos turcomanos.
A polícia pode prender, por exemplo, qualquer pessoa que use a palavra em algum local público, mesmo que seja apenas durante uma conversa com amigos.
Berdymukhamedov, 62, comanda o país desde 2007, sendo conhecido por suas excentricidades. O ditador tem uma verdadeira obsessão por cavalos, a ponto de decorar todo seu gabinete com motivos equinos. Ele também adora videoclipes com a estética dos anos 1980 e 1990, tendo estrelado em vários deles.
Localizado na Ásia Central, o Turcomenistão é um ex-integrante da União Soviética e um dos países mais fechados do planeta, sendo muitas vezes comparado à Coreia do Norte. O país é o último colocado no ranking de liberdade de imprensa feito pela ONG Repórteres Sem Fronteiras e o penúltimo no ranking de liberdade global feito pela Freedom House, entidade com sede em Washington.
Organizações de direitos humanos já denunciaram o regime de Berdymukhamedov pelo desaparecimento de dissidentes e por fraudes eleitorais.Em sua última reeleição, em 2017, ele recebeu 97.69% dos votos.
Fonte: Notícias ao Minuto
Na lista de excentricidades do ditador: O Turcomenistão branco
A polícia pode prender, por exemplo, qualquer pessoa que use a palavra em algum local público, mesmo que seja apenas durante uma conversa com amigos.
Berdymukhamedov, 62, comanda o país desde 2007, sendo conhecido por suas excentricidades. O ditador tem uma verdadeira obsessão por cavalos, a ponto de decorar todo seu gabinete com motivos equinos. Ele também adora videoclipes com a estética dos anos 1980 e 1990, tendo estrelado em vários deles.
Localizado na Ásia Central, o Turcomenistão é um ex-integrante da União Soviética e um dos países mais fechados do planeta, sendo muitas vezes comparado à Coreia do Norte. O país é o último colocado no ranking de liberdade de imprensa feito pela ONG Repórteres Sem Fronteiras e o penúltimo no ranking de liberdade global feito pela Freedom House, entidade com sede em Washington.
Organizações de direitos humanos já denunciaram o regime de Berdymukhamedov pelo desaparecimento de dissidentes e por fraudes eleitorais.Em sua última reeleição, em 2017, ele recebeu 97.69% dos votos.
Fonte: Notícias ao Minuto
Na lista de excentricidades do ditador: O Turcomenistão branco
01 abril, 2020
A origem proximal do novo coronavírus
O novo coronavírus SARS-CoV-2 surgiu como resultado de uma evolução natural, segundo um artigo publicado na Nature Medicine. A análise de dados públicos da sequência do genoma do vírus causador da Covid-19 comprovou que o organismo não foi produzido em laboratório ou manipulado de outra forma.
"Ao comparar os dados disponíveis da sequência do genoma para cepas conhecidas de outros coronavírus, pudemos determinar firmemente que o SARS-CoV-2 se originou a partir de processos naturais", disse Kristian Andersen, um dos autores do estudo, em comunicado.
Ao Editor:
SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido por infectar seres humanos. SARS-CoV, MERS-CoV e SARS-CoV-2 podem causar doença grave, enquanto HKU1, NL63, OC43 e 229E estão associados a sintomas leves. Aqui, revisamos o que pode ser deduzido sobre a origem do SARS-CoV-2 a partir da análise comparativa de dados genômicos. Oferecemos uma perspectiva sobre os recursos notáveis do genoma SARS-CoV-2 e discutimos cenários pelos quais eles poderiam ter surgido. Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado.
The proximal origin of SARS-CoV-2. Nat Med (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0820-9
Autores: Kristian G. Andersen (EUA), Andrew Rambaut (Grã-Bretanha), W. Ian Lipkin (EUA), Edward C. Holmes (Austrália) e Robert F. Garry (EUA).
"Ao comparar os dados disponíveis da sequência do genoma para cepas conhecidas de outros coronavírus, pudemos determinar firmemente que o SARS-CoV-2 se originou a partir de processos naturais", disse Kristian Andersen, um dos autores do estudo, em comunicado.
Ao Editor:
SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido por infectar seres humanos. SARS-CoV, MERS-CoV e SARS-CoV-2 podem causar doença grave, enquanto HKU1, NL63, OC43 e 229E estão associados a sintomas leves. Aqui, revisamos o que pode ser deduzido sobre a origem do SARS-CoV-2 a partir da análise comparativa de dados genômicos. Oferecemos uma perspectiva sobre os recursos notáveis do genoma SARS-CoV-2 e discutimos cenários pelos quais eles poderiam ter surgido. Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado.
The proximal origin of SARS-CoV-2. Nat Med (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0820-9
Autores: Kristian G. Andersen (EUA), Andrew Rambaut (Grã-Bretanha), W. Ian Lipkin (EUA), Edward C. Holmes (Austrália) e Robert F. Garry (EUA).
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