21 junho, 2019

Crestomatia e termos vizinhos

24 de janeiro de 1996
A palavra crestomatia é uma palavra composta, registada no início do século XVII. É composta de dois elementos, ambos gregos, de chrêstos, que significa “útil”, e de máthesis, “aprendizagem”, do verbo manthanein que significa “aprender”. O significado do substantivo crestomatia seria portanto “aquilo que é útil para a aprendizagem, que é útil no processo educativo” e refere-se a colectânea de textos escolhidos em função do ensino: recolha de fragmentos de prosa tirados de autores clássicos, célebres, que escrevem “bem” e são “bons” para o ensino.
O termo vizinho, hoje frequentemente misturado com o de crestomatia é o de antologia. Sendo anthos a “flor” em grego, a antologia seria uma recolha de textos ou excertos de textos, mas escolhidos mais com base num critério estético, não sendo necessariamente conotada com a ideia de ensino. Além disso, o termo antologia usa-se com mais frequência para a poesia, enquanto a crestomatia se referiria mais à prosa.
Existe mais um termo semelhante em português (e não só em português): o de florilégio, de início do século XVIII. O florilégio tem também uma conotação de avaliação estética, embora possa denotar qualquer recolha de textos considerados representativos, conforme vários critérios adotados. Vem do latim moderno florilegium, palavra forjada segundo o modelo de spicilegium, de spica, “ponta, espiga”, que passou a denotar uma espécie de ligadura, utilizada para amassar os documentos ou páginas avulsas de qualquer texto, diplomas, etc. A palavra espicilégio existe, creio, ainda hoje em português, mas mais para a papelada administrativa, lato sensu.
E, por fim, o(s) analecto(s) é mais um termo vizinho aos referidos, que podia ter sido utilizado para a colectânea de fragmentos, literários mas não só, que vem do grego análectos, “recolhido”, através do latim analecta, que designava o coitado escravo que recolhia os restos de refeições ou o compilador de frases e palavras – exatamente como o coitado autor desta Crestomatia de Quarta (Feira).
Želimir Brala
N. do E.
Seleta, livro em que estão coligidos trechos literários escolhidos das obras de vários autores. Do latim selecta, «coisas escolhidas», particípio passado neutro plural de seligĕre, «escolher; selecionar»

Diz Vasco Arruda:
O que popularizou o vocábulo (crestomatia) no Brasil foi a publicação, em 1931, do livro Crestomatia: excertos escolhidos em prosa e verso dos melhores escritores brasileiros e portugueses, pelo professor gaúcho Radagasio Taborda. Como o próprio título sugere, trata-se de uma antologia com textos em prosa e verso que abordam uma grande diversidade de assuntos tais como literatura, geografia, história, religião etc.
A Crestomatia do professor Radagasio Taborda foi amplamente utilizada nas escolas durante décadas, e suas edições são hoje objeto de disputa entre colecionadores e bibliófilos.
[http://blogs.opovo.com.br/sincronicidade/2011/09/29/no-tempo-da-crestomatia/]
Exemplos de outras crestomatias no Brasil e no mundo:
Inocêncio Francisco da Silva, Crestomatia portuguesa oferecida à mocidade estudiosa, Typ. de José Manuel Mendes, Lisboa, 1850
Bernhard Dorn, A Chrestomathy of the Pushtu or Afghan language, St. Petersburg, 1847
Gustavo Adolfo Otero, Crestomatía Boliviana, Arnó Hermanos Libreros - Editores, La Paz, 1925
Eduardo del Palacio Fontán, Crestomatía Francesa, Imprenta Torrent, Madrid, 1929
F. Viching, Crestomatía Latina, Librería Bastinos de José Bosch, Barcelona, 1932
José Joaquim Nunes, Crestomatia Arcaica, Editora Livraria Clássica, Caxias do Sul, 1970
Takamitsu Muraoka, Siríaco Clásico. Gramática Básica Con Crestomatía, Verbo Divino, Navarra, 2007

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