No início dos anos 1900, um químico francês (também artista e decorador), Edouard Benedictus, sofre um acidente banal no laboratório: ele deixa cair um frasco. Só que, dessa vez, ele não se estilhaça. Os pedaços de vidro permanecem grudados, como um mosaico. Intrigado, Benedictus se aprofunda e percebe que havia um colódio dentro do frasco, que, uma vez evaporado, havia se depositado na superfície do vidro como uma película e estava mantendo os pedaços de vidro juntos. Ele havia inventado, sem saber, o vidro inquebrável (laminado). Mas ele o colocou dentro de um armário e só o recuperou mais tarde, quando o mercado de automóveis criou o problema para o qual ele já havia encontrado a resposta — como se a invenção fosse a mãe da necessidade, e não o contrário.
Tais momentos de serendipidade revelam a natureza imprevisível da inovação. No entanto, mesmo em casos onde o acaso desempenha um papel, como na história de Benedictus, a questão mais ampla permanece: tais descobertas realmente nasceram da sorte, ou estavam de alguma forma "no ar", esperando que a pessoa certa as aproveitasse?
A descoberta é inevitável ou acidental? In: Nautilus
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15 novembro, 2025
03 novembro, 2025
Genealogia cósmica
O que fez de você você
Cada um de nós é uma constelação casual de elementos forjados em estrelas mortas há muito tempo reunidas pela gravidade, que pode ser a outra palavra para Deus — a mais fraca das quatro forças fundamentais, mas o grande compactador cósmico que fez os primeiros átomos se unirem em um centro comum para formar a primeira estrela: uma imensa bola de gás, no centro da qual havia uma esfera de hidrogênio que eventualmente atingiu pressões de milhões de atmosferas e aqueceu até milhões de graus. Essas condições extremas desencadearam um novo fenômeno no cosmos — as primeiras reações de fusão nuclear : quando dois átomos de hidrogênio colidem com imensa força, nêutrons são transferidos de um núcleo para o outro, tornando alguns átomos maiores. Após uma série dessas colisões, um núcleo com dois prótons se forma e o segundo elemento — hélio — nasce. À medida que a estrela se inflama, iluminando a escuridão austera do espaço-tempo puro ao seu redor, ela continua queimando seu hidrogênio para produzir mais hélio. A fusão acelera, forjando carbono, depois neônio, depois oxigênio e assim por diante na tabela periódica, transformando a estrela em uma espécie de cebola com camadas de reações de fusão.
A maioria dos primeiros vinte e seis elementos da tabela periódica — os elementos que compõem quase tudo o que podemos tocar e ver — foram criados pela fusão nuclear em estrelas individuais. Se você pudesse marcar qualquer átomo individual em seu corpo e segui-lo para trás no tempo, por toda a outra matéria que ele compôs antes de se tornar seu — o corpo de sua mãe, a comida que sua mãe comeu, o solo em que essa comida cresceu, os estratos geológicos moídos pelos oceanos para fazer esse solo — você poderia rastreá-lo até o núcleo de uma estrela específica que viveu e morreu bilhões de anos atrás: um átomo real que agora está em você, tendo prevalecido sobre as infinitas probabilidades pelas quais ele poderia ter acabado em outra pessoa.
A essa máquina de acaso de Rube Goldberg (*) você deve toda a sua particularidade — altere qualquer parte dessa genealogia cósmica, e você teria acabado como outra pessoa.
Maria Popova, The Marginalian
N. do E.
O acaso é organizador mas precisa de tempo, muito tempo.
Cada um de nós é uma constelação casual de elementos forjados em estrelas mortas há muito tempo reunidas pela gravidade, que pode ser a outra palavra para Deus — a mais fraca das quatro forças fundamentais, mas o grande compactador cósmico que fez os primeiros átomos se unirem em um centro comum para formar a primeira estrela: uma imensa bola de gás, no centro da qual havia uma esfera de hidrogênio que eventualmente atingiu pressões de milhões de atmosferas e aqueceu até milhões de graus. Essas condições extremas desencadearam um novo fenômeno no cosmos — as primeiras reações de fusão nuclear : quando dois átomos de hidrogênio colidem com imensa força, nêutrons são transferidos de um núcleo para o outro, tornando alguns átomos maiores. Após uma série dessas colisões, um núcleo com dois prótons se forma e o segundo elemento — hélio — nasce. À medida que a estrela se inflama, iluminando a escuridão austera do espaço-tempo puro ao seu redor, ela continua queimando seu hidrogênio para produzir mais hélio. A fusão acelera, forjando carbono, depois neônio, depois oxigênio e assim por diante na tabela periódica, transformando a estrela em uma espécie de cebola com camadas de reações de fusão.
A maioria dos primeiros vinte e seis elementos da tabela periódica — os elementos que compõem quase tudo o que podemos tocar e ver — foram criados pela fusão nuclear em estrelas individuais. Se você pudesse marcar qualquer átomo individual em seu corpo e segui-lo para trás no tempo, por toda a outra matéria que ele compôs antes de se tornar seu — o corpo de sua mãe, a comida que sua mãe comeu, o solo em que essa comida cresceu, os estratos geológicos moídos pelos oceanos para fazer esse solo — você poderia rastreá-lo até o núcleo de uma estrela específica que viveu e morreu bilhões de anos atrás: um átomo real que agora está em você, tendo prevalecido sobre as infinitas probabilidades pelas quais ele poderia ter acabado em outra pessoa.
A essa máquina de acaso de Rube Goldberg (*) você deve toda a sua particularidade — altere qualquer parte dessa genealogia cósmica, e você teria acabado como outra pessoa.
Maria Popova, The Marginalian
N. do E.
O acaso é organizador mas precisa de tempo, muito tempo.
31 outubro, 2025
Escolhas
O tempo, o lugar, a cultura, a família, o corpo, o cérebro e a bioquímica, as pessoas que cruzam nosso caminho, os acidentes que nos acontecem — tudo isso, em consequência, ofusca a soma total de nossas escolhas. Ainda assim, nossas escolhas são os pontos de luz que tremeluzem contra a imensidão opaca do acaso para iluminar nossas vidas com significado, assim como as estrelas, todos os bilhões delas, compõem apenas 0,4% de um universo feito principalmente de energia escura e matéria escura, e, no entanto, essas mesmas estrelas esparsas criaram tudo o que conhecemos e somos.
~ Maria Popova
~ Maria Popova
16 julho, 2015
Descobertas ao acaso
A história da ciência está repleta de descobertas que aconteceram ao acaso. Mas elas não teriam acontecido se não houvesse por perto, como disse Louis Pasteur, uma mente preparada.
Arquimedes
Arquimedes (287-212 a.C.), um grande matemático grego, tomava seu banho imerso em uma banheira, quando teve o que hoje chamamos de insight e, repentinamente, encontrou a solução para um problema que o atormentava havia tempos. Seria a coroa do rei de Siracusa realmente de ouro? Dizem que Arquimedes teria saído à rua nu, gritando Eureka! Eureka! (Encontrei!). Ele havia descoberto um dos princípios fundamentais da hidrostática, que seria conhecido futuramente como o "Princípio de Arquimedes". [1]
Kekulé
O químico alemão August Kekulé (1829-1896), durante uma noite do ano de 1865, apos uma década pesquisando as ligações das moléculas de carbono, adormeceu defronte a lareira sonhando com uma cobra que mordia o próprio rabo, a Ouroboros. Essa visão onírica serviu-lhe de inspiração para o entendimento da estrutura molecular do hidrocarboneto benzeno. [2]
Fleming
Ao se preparar para entrar em férias por duas semanas, Alexander Fleming semeou estafilococos em uma placa de cultura e, ao invés de colocá-la na incubadora, como normalmente fazia, resolveu deixá-la sobre a bancada.
No andar de baixo do laboratório de Fleming, trabalhava um perito em mofos. Imagina-se que os esporos desses fungos, muito leves, tenham sido levados pelo vento e estavam flutuando em grande quantidade no ar do laboratório de Fleming, cuja porta sempre ficava aberta.
Retornando das férias, ele observou que a placa de cultura que ficara sobre a bancada apresentava uma zona totalmente desprovida de estafilococos, justamente a parte que estava cercada por um mofo, o Penicillium notatum. Fleming havia descoberto a penicilina, a primeira droga capaz de curar inúmeras infecções bacterianas. [3]
Galvani
Em seus estudos, dissecando rãs em uma mesa enquanto conduzia experimentos com eletricidade estática, um dos assistentes de Galvani tocou em um nervo ciático de uma rã com um escalpelo metálico, o que produziu uma reação muscular na região tocada sempre que eram produzidas faíscas em uma máquina eletrostática próxima. Tal observação fez com que Galvani investigasse a relação entre a eletricidade e a animação - vida. Por isso é atribuída a Galvani a descoberta da bioeletricidade. [4]
Georges de Mestral
O velcro foi inventado em 1941 pelo engenheiro suíço Georges de Mestral. Ele se inspirou nas sementes de uma planta (Arctium) que grudavam frequentemente em sua roupa e no pelo de seu cão, durante as caminhadas que faziam pelos Alpes. Após examinar atentamente essas sementes ao microscópio, Georges distinguiu nelas filamentos entrelaçados que terminavam em pequenos ganchos: era isso a causa da aderência das sementes a pelos ou tecidos.
E concluiu ser possível a criação de um produto que unisse os dois materiais de uma maneira simples, porém reversível. Desenvolveu e patenteou o velcro, e passou em seguida a comercializá-lo através de sua companhia Velcro S.A. O nome faz referência a duas palavras em francês: velours (que significa veludo) e crochet (que significa gancho). [5]
[1} Isso é divertido!
[2] Ouroboros
[3] Pinturas microbianas
[4] 719 - Luigi Galvani, Acta
[5] 321 - Velcro, Acta
Em inglês existe a palavra "serendipity" para designar essas descobertas afortunadas, feitas aparentemente por acaso. Foi criada pelo escritor britânico Horace Walpole, em 1754, a partir do conto persa infantil "Os três príncipes de Serendip". Esta história de Walpole conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, actual Sri Lanka, que viviam fazendo descobertas inesperadas, cujos resultados eles não estavam procurando realmente. Graças à capacidade deles de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades.
Arquimedes
Arquimedes (287-212 a.C.), um grande matemático grego, tomava seu banho imerso em uma banheira, quando teve o que hoje chamamos de insight e, repentinamente, encontrou a solução para um problema que o atormentava havia tempos. Seria a coroa do rei de Siracusa realmente de ouro? Dizem que Arquimedes teria saído à rua nu, gritando Eureka! Eureka! (Encontrei!). Ele havia descoberto um dos princípios fundamentais da hidrostática, que seria conhecido futuramente como o "Princípio de Arquimedes". [1]
Kekulé
O químico alemão August Kekulé (1829-1896), durante uma noite do ano de 1865, apos uma década pesquisando as ligações das moléculas de carbono, adormeceu defronte a lareira sonhando com uma cobra que mordia o próprio rabo, a Ouroboros. Essa visão onírica serviu-lhe de inspiração para o entendimento da estrutura molecular do hidrocarboneto benzeno. [2]
Fleming
Ao se preparar para entrar em férias por duas semanas, Alexander Fleming semeou estafilococos em uma placa de cultura e, ao invés de colocá-la na incubadora, como normalmente fazia, resolveu deixá-la sobre a bancada.
No andar de baixo do laboratório de Fleming, trabalhava um perito em mofos. Imagina-se que os esporos desses fungos, muito leves, tenham sido levados pelo vento e estavam flutuando em grande quantidade no ar do laboratório de Fleming, cuja porta sempre ficava aberta.
Retornando das férias, ele observou que a placa de cultura que ficara sobre a bancada apresentava uma zona totalmente desprovida de estafilococos, justamente a parte que estava cercada por um mofo, o Penicillium notatum. Fleming havia descoberto a penicilina, a primeira droga capaz de curar inúmeras infecções bacterianas. [3]
Galvani
Em seus estudos, dissecando rãs em uma mesa enquanto conduzia experimentos com eletricidade estática, um dos assistentes de Galvani tocou em um nervo ciático de uma rã com um escalpelo metálico, o que produziu uma reação muscular na região tocada sempre que eram produzidas faíscas em uma máquina eletrostática próxima. Tal observação fez com que Galvani investigasse a relação entre a eletricidade e a animação - vida. Por isso é atribuída a Galvani a descoberta da bioeletricidade. [4]
Georges de Mestral
O velcro foi inventado em 1941 pelo engenheiro suíço Georges de Mestral. Ele se inspirou nas sementes de uma planta (Arctium) que grudavam frequentemente em sua roupa e no pelo de seu cão, durante as caminhadas que faziam pelos Alpes. Após examinar atentamente essas sementes ao microscópio, Georges distinguiu nelas filamentos entrelaçados que terminavam em pequenos ganchos: era isso a causa da aderência das sementes a pelos ou tecidos.
E concluiu ser possível a criação de um produto que unisse os dois materiais de uma maneira simples, porém reversível. Desenvolveu e patenteou o velcro, e passou em seguida a comercializá-lo através de sua companhia Velcro S.A. O nome faz referência a duas palavras em francês: velours (que significa veludo) e crochet (que significa gancho). [5]
[1} Isso é divertido!
[2] Ouroboros
[3] Pinturas microbianas
[4] 719 - Luigi Galvani, Acta
[5] 321 - Velcro, Acta
Em inglês existe a palavra "serendipity" para designar essas descobertas afortunadas, feitas aparentemente por acaso. Foi criada pelo escritor britânico Horace Walpole, em 1754, a partir do conto persa infantil "Os três príncipes de Serendip". Esta história de Walpole conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, actual Sri Lanka, que viviam fazendo descobertas inesperadas, cujos resultados eles não estavam procurando realmente. Graças à capacidade deles de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados. Esta característica tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades.
16 abril, 2013
Iludido pelo acaso
para Fernando Gurgel Filho (*)
Em seu livro "Fooled by Randomness" (Iludido pelo Acaso), Nassim Taleb nos adverte que os participantes do mercado financeiro, muitas vezes, atribuem a habilidades pessoais resultados que são meramente aleatórios.Diz o iconoclasta Professor Taleb:
"Se alguém coloca um número infinito de macacos, na frente de infinitas máquinas de escrever (fortemente construídas), e deixá-los datilografar à vontade (sem destruir as máquinas), com certeza de um deles vai sair uma cópia exata da Ilíada. Uma vez que o herói entre os macacos seja encontrado, apostaria você todas as economias de sua vida em que ele, a seguir, poderia escrever a Odisseia?(*) FGF é autor do ensaio A presença do acaso em nossas vidas.
19 abril, 2009
Pela blogosfera - 32
Duas notas deste blog foram recentemente comentadas por Nonato Albuquerque:
Dicas de "jeitologia", em "Antena Paranóica", e Os blogados do Nonato, em "Gente de Mídia". Esta última nota, aqui publicada há bastante tempo e apresentada a este jornalista por um clique sem bússola, motivou-o a escrever Egos do Passado, cuja conclusão é que "nada acontece por acaso".
Por conta de uma ilustração de Marcos Andruchak, que inseri em Arraias, paquetões e bolachinhas, post de EntreMentes em 21/07/08, Jandira Moura enviou comentário em que considera fantástica a obra desse artista. E sugere-me dar uma espiada no site Construindo a Nação, dedicado ao recém-criado "Projeto Andruchak Arte Brasil".
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