Húngaro de nascimento, Arnold Gluckmann era maestro, arranjador e compositor. Em 1929, já o encontramos à frente de uma orquestra sinfônica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, num concerto em que Radamés Gnatalli, então com 23 anos, brilhou como solista. Em 1934, assumiu a direção da Rádio Club do Brasil, tornando-se responsável pela entrada de diversos artistas para o broadcasting da emissora.
Nasceu aí o contato artístico de Gluckmann com o compositor Noel Rosa. O método e o formalismo musical de um, o autodidatismo e a bossa de outro. O ar sisudo e grave do maestro, em confronto com o espírito gozador e a malícia de Noel. E a opereta "A Noiva do Trocador" é fruto deste encontro de culturas.
Num tempo em que as programações das estações de rádio eram bem diferentes - aos sábados à noite, por exemplo, a Radio Club (PRA 3) transmitia a Noite de Baile Cafiaspirina, no qual uma orquestra tocava para os ouvintes dançarem em casa. E a ilustração abaixo é uma peça publicitária da Bayer, publicada em 1934 na revista Fon Fon.
O inventor do jogo do bicho foi o empresário mineiro João Baptista Vianna Drummond, nascido em Itabira do Mato Dentro em 1.° de maio de 1825. Drummond veio cedo para o Rio de Janeiro, trazendo na mala os três contos de réis que seu pai, um coronel mineiro, deixara como dote para cada um dos catorze filhos. Espírito empreendedor, o futuro barão estabeleceu-se no comércio de importação, mas seu primeiro grande sucesso no mundo das finanças deveu-se a especulações bem sucedidas na bolsa de valores.
Já estabelecido como homem de negócios, casa-se com a filha de um banqueiro e é admitido na aristocracia carioca, na época girando em torno da corte imperial. Mais adiante, estará atuando nos negócios públicos e estabelecendo amizade com o Barão de Mauá, de quem se torna sócio em alguns empreendimentos. Em 1872, Drummond compra uma vasta área na zona norte do Rio, então pertencente à Duquesa de Bragança, e inicia o empreendimento que o tornaria indissoluvelmente ligado à história da cidade.
O Barão de Drummond era uma das poucas personalidades que podia orgulhar-se de ter fundado um bairro inteiro a partir do nada. Foi o que aconteceu com Vila Isabel (homenagem à princesa), bairro planejado, cujos lotes de terra foram vendidos já com todos os melhoramentos urbanos devidamente implantados. Ao contrário do modelo urbanístico então dominante na cidade, cujas ruas estreitas atestavam a herança portuguesa, a Vila Isabel foi concebida a partir do modelo parisiense que Drummond conhecera numa viagem à França, com avenidas largas e uma estrutura de lazer e de serviços até então inexistente no Rio.
O Barão de Drummond foi também um ferrenho abolicionista: alforriou todos os seus escravos muito antes da Abolição e deu às ruas de Vila Isabel o nome dos principais líderes abolicionistas da segunda metade do século XIX.
O doodle de hoje comemora o 109.º aniversário do cantor e compositor brasileiro Noel de Medeiros Rosa (RJ, 11 de dezembro de 1910 — RJ, 4 de maio de 1937).
Conhecido como «Poeta da Vila», seu estilo observacional e cômico lhe valeu um lugar especial na história da música popular brasileira
Nascido no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, em 1910, Noel Rosa cresceu em uma família musical. Ele começou a tocar bandolim aos 13 anos e logo aprendeu também violão.
Estudante talentoso, ele ingressou na faculdade de medicina em 1931. No entanto, quando teve que escolher entre medicina e música, a escolha de Rosa ficou clara. Noel Rosa dedicou sua energia à composição musical e criou seu próprio estilo de samba, combinando letras espirituosas com resoluções harmônicas imprevisíveis.
Compondo cerca de 260 músicas em um período de oito anos, Noel Rosa estabeleceu um corpo de trabalho que permanece imorredouro até hoje.
Em 27 de janeiro de 1935, Noel Rosa, doente (com tuberculose) em Belo Horizonte, enviou uma carta em versos a seu médico e amigo Edgar Graça Mello. Uma carta bem-humorada em que ele brincava e dizia que já estava melhor de saúde, mas que continuava com muito medo de tomar injeção. O original desta carta está nos arquivos que pertenceram ao pesquisador Almirante. Só os biógrafos e as pessoas muito ligadas à música ou a Noel sabiam da existência dela.
Muito tempo após a morte de Noel, o sambista João Nogueira musicou-a, incluindo-a em seu LP "Vida boêmia" (EMI-Odeon, 1978).
Fonte: Songbook NOEL ROSA - Vol. 1, produzido por Almir Chediak.
"Já apresento melhoras pois levanto muito cedo E deitar às nove horas pra mim já é um brinquedo A injeção me tortura e muito medo me mete Mas minha temperatura não passa de 37. Nessas balanças mineiras de variados estilos Trepei de varias maneiras e pesei 50 quilos Deu resultado comum o meu exame de urina Meu sangue noventa e um por cento de hemoglobina. Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro Pois não há material pro meu exame de escarro. Até agora só isto para o bem dos meus pulmões E nem brincando desisto de seguir as instruções. Que o meu amigo Edgard arranque desse papel O abraço que vai mandar o seu amigo Noel."
Pesquisando a obra do grande Poeta da Vila - Noel Rosa - encontramos no universo, predominantemente sambístico, quatro "fox-trots" pouco divulgados, mas bastante interessantes, os quais compartilho com vocês. Você só... mente (Noel Rosa/Helio Rosa) # Francisco Alves e Aurora Miranda. Disco Odeon (11043-A) / Matriz (4691). Gravação (5/7/1933) / Lançamento (agosto/1933). Julieta (Noel Rosa/Eratóstenes Frazão) # Castro Barbosa e Orquestra Odeon. Disco Odeon (11063-B) / Matriz (4703). Gravação (3/8/1933) / Lançamento (outubro/1933). Estátua da paciência (Noel Rosa/Jerônimo Cabral) # Carlos Didier (voz) / Netinho (clarinete) / Luiz Carlos Marques (violino) / Zênio (tuba). Conjunto Coisas Nossas: Aluísio Didier (piano) / Carlos Didier (violão) / Henrique Cazes (banjo) / Beto Cazes (lápis no dente) / Oscar Bolão (bateria) / Aluísio Didier (arranjo/regência). Disco Eldorado (78.83.0408-B), 1983. (OBS: Partitura manuscrita pertencente ao Arquivo Almirante).
Seu telegrama diz:
"Regressarei brevemente"
Mas o seu trem fatalmente
Chegar não quis
Não entendi por que
O trem não traz pra cidade
A minha felicidade
Que é você
A quem acabar com a raça dos trens
Além dos meus parabéns
Eu darei como prêmio de consolação
O relógio e o prédio da estação
Eu sou na estação
A estátua da paciência
E acabei sendo agência
De informação
Sei os itinerários
Já decorei os horários
O nome dos maquinistas
E dos foguistas
Seu telegrama diz:
"Regressei brevemente"
Mas o seu trem fatalmente
Chegar não quis
Não entendi, querida,
Porque seu trem não regressa
Amenizando depressa
A minha vida
Perdoa este pecador [Da opereta ‘A noiva do condutor’] (Noel Rosa/Arnold Glückmann) # Carlos Didier (voz) / Aluísio Didier (piano) / Zeca Assumpção (contrabaixo) / Dazinho (sax-alto) / Netinho (clarinete) / Luiz Carlos Marques (violino). Henrique Cazes (banjo) / Beto Cazes (templeblock) / Oscar Bolão (bateria) / Aluísio Didier (arranjo/regência). Disco Eldorado (106.86.0447B), novembro/1985.
Comentário de Paulo Gurgel:
Excelente pesquisa, Laura.
"Estátua da Paciência" é mais uma das muitas provas da grande espirituosidade de Noel Rosa.
Envio-lhe uma contribuição:
Em "Não tem tradução", que não é um fox-trot, o Poeta da Vila também fez uma referência ("mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote / e só queria dançar o fox-trot") a este gênero de música e dança.
Comentário de Laura Macedo:
Paulo,
O nosso querido Poeta da Vila - Noel Rosa - ainda hoje nos surpreende. Eu achava que ele era autor de apenas dois fox-trots. Pesquisando como mais tempo descobri os outros dois.
Adorei sua contribuição! Gosto muito de "Não tem tradução", do Noel Rosa. A título de informação "por contrato com a gravadora Odeon, erroneamente consta no selo do disco original, os nomes de Francisco Alves e Ismael Silva como co-autores".
Uma espécie de samba-testamento do grande compositor Noel de Medeiros Rosa. Em seu leito de morte, Noel Rosa cantarolou a composição, dedicada a Ceci (uma das mulheres que ele amou), para que Vadico a anotasse na pauta. Depois, a pedido de Noel Rosa, o parceiro Vadico entregou uma das cópias da letra à musa. O que Vadico fez, comentando: “Acho que ele te castigou um pouco neste samba, Ceci.” O samba-canção foi gravado em disco por Aracy de Almeida com os Boêmios da Cidade, em 1938, pela RCA. No Blog, um vídeo de “Último Desejo”, gravado em 1975, para um especial da TV Globo sobre o compositor. Com Maysa (voz) e Rildo Hora (gaita).
Thiago Mello, que inseriu o vídeo no YouTube, edita em Florianópolis o blogBossa Brasileira.