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26 janeiro, 2024

"nosso hino" / "nó suíno"

A nossa língua portuguesa às vezes nos prega peças como essa, com seus cacófatos. Mas parece que em boa hora alguns repórteres e/ou editores e âncoras televisivos se deram conta do desconfortável cacófato e simplesmente anunciam assim: "Ouviremos agora o Hino Nacional Brasileiro". E não mais, como alguns costumavam anunciar: "Ouviremos agora o nosso hino" / "o nó suíno".
http://www.jcnet.com.br/opiniao/tribuna_do_leitor/2014/06/286005-o-no-suino.html

PauloGCS:
Aponte os cacófatos no Hino Nacional Brasileiro.

ChatGPT:
O Hino Nacional Brasileiro não contém cacófatos, que são combinações de sons que resultam em uma sonoridade indesejável ou de duplo sentido. O hino foi cuidadosamente escrito e revisado para evitar esse tipo de construção. Sendo assim, não há cacófatos conhecidos no hino nacional brasileiro.

PauloGCS:
Então, não são cacófatos: "ouviram do"  / "o virundum", "o heroico brado" / "o herói cobrado", "terra mais garrida" / "terra margarida" e "um filho teu" / "um filisteu"?

ChatGPT:
Peço desculpas pelo equívoco anterior. Na verdade, existem alguns exemplos de cacófatos no Hino Nacional Brasileiro. Os exemplos que você mencionou são de fato cacófatos:
"ouviram do" pode criar a sonoridade de "o virundum";
"o heroico brado" pode ser interpretado como "o heroi cobrado";
"terra mais garrida" pode criar a sonoridade de "terra margarida";
"um filho teu" pode gerar a sonoridade de "um filisteu".
Esses são exemplos de cacófatos, que são combinações de sons que podem resultar em uma sonoridade indesejável ou de duplo sentido. Obrigado por apontar essas observações!

17 outubro, 2023

Guiomar Novaes. Dois mo(vi)mentos

1
Monteiro Lobato (1882 – 1948) era vizinho do pianista Luigi Chiaffarelli (1856 – 1923), um italiano radicado em São Paulo. Dentre os alunos do professor de piano Luigi, o escritor paulista teve a oportunidade de conhecer a talentosa menina Guiomar Novaes (1895 –1979), em quem ele se inspirou para criar a personagem Narizinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Na vida real, Guiomar seguiu a carreira de pianista de renome internacional.
2
Em 1972, Guiomar Novaes foi convidada para a comemoração dos 50 anos da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, onde tocaria o mesmo repertório da sua apresentação em 1922 - com exceção da "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro", de Louis Morreau Gottschalk, por ser uma obra mal vista pela ditadura militar. A pianista compareceu no evento, subiu ao palco e tocou apenas a obra em questão, deixando o teatro sob intensos aplausos.

13 abril, 2021

A prosopopeia das margens plácidas

O começo sempre vai bem: "Ouviram do Ipiranga...". E agora? É "as margens plácidas" ou "às margens plácidas"? Para cantar, não faz a menor diferença, já que "as" e "às" se emitem do mesmo modo.
Deixemos a cantoria para lá e fiquemos com a escrita, em que a opção por "as" ou "às" muda tudo. Volta e meia, algum vestibular tradicionalista pergunta qual é o sujeito da primeira oração da letra do hino. Quem supõe que a forma oficial seja "às" vota logo em "indeterminado".
Não há acento nesse "as". Não porque eu ache ou não queira que não exista. Não há porque não há, porque o texto oficial é "as margens", sem acento. O sujeito da primeira oração da letra do hino é "as margens plácidas do Ipiranga". 
"E margens ouvem?", perguntarão alguns. Ouvem, sim, caro leitor. Temos aí a figura da "prosopopeia", pela qual se dão atributos de seres animados a seres inanimados.
Bem, antes da prosopopeia, é preciso levar em conta que no hino há muitas orações cujos termos não estão dispostos na ordem direta. É esse o caso de "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo heróico o brado retumbante", que, na ordem direta, passaria a "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico". Foram elas, as margens plácidas ("calmas", "serenas") do Ipiranga, que ouviram o brado ("clamor", "grito") retumbante ("estrondoso") de um povo heróico.
Se existisse o acento, a expressão "às margens plácidas" seria adjunto adverbial e, por isso, não iniciaria a ordem direta; encerrá-la-ia ("Ouviram o brado retumbante de um povo heróico às margens plácidas do Ipiranga).
Pasquale Cipro Neto, Folha de SP

Extraído de: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2006200210.htm

O Hino Nacional
O Virundum
A letra de introdução do Hino Nacional
O Hino Nacional Brasileiro (em guarani)
Hino Nacional Brasileiro (do contexto à reforma)

20 setembro, 2020

Canção do exílio

"Nossos bosques têm mais vida"

"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Por que há aspas nesses trechos do Hino Nacional?
São citações de versos da "Canção do exílio", escrita em 1843 por Gonçalves Dias. Eis o trecho inicial do poema em que os versos estão:
"Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá. / Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida, mais amores."
Paródias, referências e mais citações
Segue-se uma lista de paródias, reimaginações e citações do retroaludido poema feitas por outros autores nacionais.
"Eu nasci além dos mares" e "Eu já morri na flor dos anos" - Casimiro de Abreu
"Canto de retorno à pátria" - Oswald de Andrade
"Europa, França e Bahia" - Carlos Drummond de Andrade
"Nova canção do exílio" - Carlos Drummond de Andrade
"Canção do exílio" - Murilo Mendes
"Uma canção" - Mário Quintana
"Jogos florais I" e "II" - Cacaso
"Canção do exílio facilitada - José Paulo Paes
"Lisboa: Aventuras" - José Paulo Paes
"Pátria minha" - Vinicius de Moraes
"Canção do expedicionário" - Guilherme de Almeida
"Por mais terras que eu percorra, / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá." http://www.vagalume.com.br/exercito-brasileiro/cancao-do-expedicionario.html
"Sabiá" - música de Chico Buarque e Tom Jobim
"Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / Que eu hei de ouvir cantar / Uma sabiá / Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Vou deitar à sombra / De um palmeira / Que já não há." http://www.letras.mus.br/chico-buarque/86043/

(orquestração)
"Terra das Palmeiras" - Taiguara
"Sonhada terra das palmeiras / Onde andará teu sabiá? / Terá ferida alguma asa? / Terá parado de cantar?" http://www.letras.mus.br/taiguara/1800972/
"Marginália II" - Gilberto Gil
"Minha terra tem palmeiras / Onde sopra o vento forte / Da fome, do medo e muito / Principalmente da morte / Olelê, lalá." http://www.letras.mus.br/torquato-neto/387446/

13 abril, 2020

Hino Nacional Brasileiro: do contexto em que foi composto à sua reforma no período republicano

A música do Hino Nacional, isto é, a sua parte instrumental, foi composta pelo maestro Francisco Manuel da Silva (1795-1865), então membro da Imperial Academia de Música. Esse maestro era profundamente ligado ao movimento de oposição ao reinado de D. Pedro I, bem como à influência que muitos portugueses que viviam no Brasil exerciam sobre o Império. Quando, em 7 de abril de 1831, motivado por pressões políticas diversas, D. Pedro I abdicou do trono em favor de seu filho, aqueles que eram contrários ao seu regime festejaram enormemente o ocorrido. O maestro Francisco foi um deles.
O maestro, assim como muitos outros brasileiros do período, acreditavam que o governo da Regência e o futuro imperador, o menino Pedro de Alcântara, nascido no Brasil (e não lusitano, como o pai), seriam opções melhores para a nação. Um poeta da época, Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, escreveu um poema que foi quase que imediatamente acrescentado à música de Francisco. Na letra de Ovídio, era possível perceber o tom antilusitano e a esperança na Regência e no futuro imperador.
Assim sendo, a música de Francisco e a letra de Saraiva foram executadas pela primeira vez em 13 de abril daquele mesmo ano, na cidade do Rio de Janeiro.
Com a Proclamação da República, em 1889, alguns dos membros do golpe deflagrado contra o Imperador D. Pedro II solicitaram a composição de um novo hino nacional, que tivesse a ver com o novo contexto político do país. Ocorreu que, do concurso feito para se eleger o novo hino, a música eleita desagradou fortemente o então presidente Deodoro da Fonseca, que abandonou a ideia e preservou a música de Francisco Manuel da Silva como Hino Nacional.
Em 1906, já no governo de Afonso Pena, outro maestro, chamado de Alberto Nepomuceno, membro do Instituto Nacional de Música, propôs ao presidente da República uma reforma da música de Francisco Manuel. Afonso Pena autorizou a reforma e, para complementar, um concurso para eleger uma nova letra para o hino foi feito. O vencedor do concurso foi Osório Duque-Estrada (1870-1927), poeta e professor. A letra de Duque-Estrada foi combinada com a reforma instrumental que Nepomuceno fez na música de Francisco. Assim, nasceu o Hino Nacional tal como o conhecemos hoje.
Essa nova versão do hino, que prevalece ainda nos nossos dias, só foi oficializada em 1922, no centenário da Independência.
Claudio Fernandes

Extraído de: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/datas-comemorativas/hino-nacional.htm

13 abril, 2015

A letra de introdução do Hino Nacional Brasileiro

A parte instrumental da introdução do Hino Nacional Brasileiro possuía uma letra, que acabou excluída da versão oficial do hino. Essa letra é atribuída a Américo de Moura, natural de Pindamonhangaba, presidente da província do Rio de Janeiro nos anos de 1879 e 1880. Em 17 de novembro de 2009, o cantor Eliezer Setton lançou um CD intitulado "Hinos à Paisana", das quais uma das faixas é o Hino Nacional Brasileiro com essa introdução cantada.
A letra da introdução (1) é a seguinte:
Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante
Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante
Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz
Cumpri o dever na guerra e na paz
À sombra da lei, à brisa gentil
O lábaro erguei do belo Brasil
Eia! Sus, oh, sus! (2)
N. do E.
(1) A letra da introdução é anterior à letra atual do próprio Hino. Esta, que é a terceira letra do Hino, foi escrita somente em 1906 por Osório Duque-Estrada. Quanto à música, foi composta com o nome de "Marcha Triunfal", em 1822, por Francisco Manuel.
(2) A palavra "sus" é uma interjeição que vem do latim sus: "de baixo para cima"; que chama à motivação: erga-se!, ânimo!, coragem! Neste contexto é sinônimo de "em frente, avante".

Ouça a introdução cantada do Hino Nacional Brasileiro na WIKIPÉDIA.

22 fevereiro, 2015

O gato de Pavlov

Quando o Hino Nacional Russo começa a tocar no telefone, este gato sabe exatamente o que fazer. Ele fica ereto sobre as patas traseiras em posição de profundo respeito ao Hino.
É um gato patriota?
Talvez não, pois o que você vê pode ser um truque. Prest'enção que o gato nem espera o hino acabar.



O truque
Na fase de treinamento, você coloca a mão com um petisco acima do gato, enquanto toca uma música (que pode ser o Hino Nacional, A Dança do Sabre ou outra música). O gato se levanta para alcançar a comida que lhe é oferecida. Feito isso bastas vezes, o animal aprende a se levantar sempre que ouve a música que ele associa ao petisco. Mesmo quando petisco não há.
Sai o cão de Pavlov e entra o gato. É um substituto à altura?


Cada vez que um gato se limpa ele está adorando o Senhor das Trevas. – Provérbio anglófono.

18 junho, 2009

Tra(duz)ir

Traduttore, traditore é um aforismo italiano que indica que toda a tradução é fatalmente infiel ao original e não pode senão traí-lo, pois é preciso recriar, e não apenas mecanicamente traduzir para espelhar em uma língua os pensamentos expressos em outra língua.
E olhe que não existiam, no tempo em que Raimundo Magalhães Jr. desenvolveu essa idéia, os tradutores online da internet. Nem a internet, aliás.
Numa crônica recente, Luís Fernando Veríssimo citou o caso de um teste que alguém fez num tradutor online. Que consistiu em fazer passar a letra do Hino Nacional por uma sequência de idiomas e, após as várias traduções feitas, trazê-lo de volta ao português. Para concluir que apenas uma palavra do Hino Nacional resistira impavidamente às ações do tradutor: "fúlgidos".
Recordações
Aqui eu conto porque resolvi não "estalar" a bandeira do Babel Fish na página principal do blog.
E aqui eu mostro como ficariam os primeiros versos do Hino Nacional ao serem colocados na ordem direta.

07 dezembro, 2007

O Hino Nacional

Apresenta uma letra pouco assimilada pela maioria dos brasileiros. Em parte, por conter palavras de difícil uso, muitas das quais proparoxítonas (lábaro, impávido, fúlgidos, flâmula etc). Noutra, porque a letra de Duque Estrada, em sua estrutura sintática, emprega muito a ordem indireta.
Colocados na ordem direta, eis como os seus primeiros versos ficariam:


Bem mais compreensíveis do que são eles em sua versão oficial. Só que este “Novo Hino Nacional” não seria, digamos, tão cantável.