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06 fevereiro, 2017

O médico e vernaculista Castro Lopes - 2

O Dr. Antônio de Castro Lopes (1827-1901) foi uma figura curiosa das letras brasileiras no século XIX. Latinista famoso, ele publicou dicionários e livros de caráter linguístico, além de uma variedade de escritos tematizados em astrologia, espiritismo e homeopatia, também exercendo o ofício de professor, médico, teatrólogo e poeta. Segundo Bortolanza (1999), fundou o primeiro banco hipotecário do país, o "Banco Predial", além da "Companhia Serviço Doméstico", da "Caixa Mutuante" e da primeira "Sociedade Cooperativa de Consumo". Era conhecedor de tudo, um "Larrousse ambulante" nas palavras de V. de Algerama (BORTOLANZA, 1999, p. 303), que tinha resposta para qualquer questão, mesmo que nem sempre bem fundamentada.
Em 1889, Castro Lopes iniciou uma série de pequenos artigos na Gazeta de Notícias propondo a substituição de estrangeirismos frequentes na língua portuguesa por vocábulos novos elaborados por ele mesmo, a maioria a partir do latim. Os textos e a busca incessante do filólogo pela pureza da etimologia da língua não passaram despercebidos por Machado de Assis, sendo tema de três crônicas da série Bons Dias!. [...]
Muitos dos neologismos criados pelo filólogo acabaram caindo no esquecimento público, como "runimol", proposto para substituir avalanche, e "sineciforo", forjado para ocupar o lugar de "chauffeur" (nosso atual "chofer"), termos inviáveis e pernósticos na opinião de Magalhães Júnior (1985). Outros vocábulos sobreviveram de forma abatida, sendo registrados em alguns dicionários como sinônimos das palavras originais, embora muito pouco empregados na fala, como os raros "lucivelo", para substituir "abat-jur", "nasoculos", no lugar de "pince-nez", e "preconnicio", em troca de "reclame". A invenção de maior sorte foi, sem dúvida, a palavra "cardápio" (GLEDSON, 2008). O termo proposto para substituir "menu" obteve grande popularização, embora a forma francesa continue também sendo utilizada.
A intervenção de Castro Lopes era muito extremada aos olhos de Machado de Assis. O escritor, como Boas Noites, tentou convencer seu público leitor de que os neologismos alatinados, imbuídos de um equivocado sentido de nacionalidade, seriam desnecessários visto que os estrangeirismos já faziam parte do cotidiano linguístico brasileiro, recebendo inclusive características nossas.

(Extraído do trabalho MACHADO DE ASSIS E OS NEOLOGISMOS DE CASTRO LOPES, de Valnikson Viana de Oliveira, apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba, como requisito para a obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Socorro de Fátima Pacífico Barbosa.)

O médico e vernaculista Castro Lopes - 1

30 novembro, 2012

O médico e vernaculista Castro Lopes

Médico por profissão e vernaculista de nomeada, Castro Lopes quis purificar a língua falada no Brasil de anglicismos e galicismos. Foi ele que, no fim do século 19, produziu neologismos como "ludopédio" para substituir o "futebol".
As palavras a que Castro Lopes tentou dar vida e aquelas que ele pretendia suprimir estão arroladas em "Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis", livro que, segundo Paulo Nogueira, serviu de tema para conversas, e piadas, trocadas entre o ex-imperador Pedro II e o Visconde de Taunay.
Observe-se sua investida contra a palavra "peignoir". Não cria, no caso, um neologismo. Vai buscar o vocábulo português que julga correspondente: "roupão". Dirigindo-se ao “belo sexo”, Castro Lopes pergunta: “Por que empregareis o termo francês 'peignoir' quando esse traje não serve para o fim que o nome indica?” Logo depois, lança, às damas nacionais, um apelo que revela seu talento humorístico: “Despi, portanto, eu vos suplico, o 'peignoir' francês, e vesti o vosso roupão”.
Ele tinha um surpreendente bom humor. Para Paulo Nogueira, Castro Lopes daria um excelente cômico se quisesse.
Pérolas do vernaculista
Referência:
A saga de Castro Lopes, por Paulo Nogueira
Diário do Centro do Mundo
Abajur - Lucivelo
Avalanche - Runimol
Bijuteria - Joalheira
Boulevard - Calçada
Cachecol - Focale
Chalé - Castelete
Champignons - Cogumelos
Claque - Venaplauso
Debut - Estréia
Engrenagem - Entrosagem
Feérico - Fatídico
Massagem - Premagem
Mise-en-scène - Encenação
Nuance - Ancenúbio
Pince-nez - Nasóculos
Piquenique - Convescote
Reclame - Preconício
Repórter - Alvissareiro
Turista - Ludâmbulo
Mas Castro Lopes não se saiu tão mal assim. Da relação acima, por exemplo, ele emplacou quatro.  Cinco, se incluirmos "roupão", que era uma palavra já existente em sua época. Mas fico a pensar no prejuízo que a supressão de "peignoir" traria para a MPB. Veja esta canção:
"Você fica deitada / de olhos arregalados / ou andando no escuro / de peignoir. / Não adiantou nada / cortar os cabelos / e jogar no mar."
Bodas de Prata, de João Bosco e Aldir Blanc

O plural do plural e A origem de algumas expressões populares