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11 fevereiro, 2026

O sapoti, onze anos depois

Postagem iniciadora da atual troca de mensagens:
Paulo, 
Onze anos depois, volto ao sapoti. Continuo seu defensor.
Onde moro hoje, a planta ainda é pequena, promessa mais do que colheita. (1) O pé em produção ficou na casa de Monlevade, já adulto, já sabendo cumprir o seu destino.
O que me surpreendeu, agora, foi o preço no Ceará. Estive aí em julho de 2025 e ele continuava girando em torno de dez reais.Uma espécie de congelamento histórico. Suprema humilhação para uma fruta não conseguir acompanhar sequer a inflação.
Enquanto isso, o mundo girou, o dinheiro perdeu valor, o salário encolheu e o sapoti permaneceu parado no tempo, como se não tivesse direito à correção monetária nem à mínima dignidade econômica. Não bastasse isso, perdeu espaço simbólico: saiu de cena para dar lugar ao kiwi, (2) fruta estrangeira, sem memória afetiva, mas com marketing, pedigree importado e status de vitrine.
O sapoti não apenas ficou mais barato. Ficou mais invisível. Tornou-se um fruto resistente, mas socialmente derrotado. (3) Não por falta de sabor, nem por deficiência nutricional, mas por abandono cultural. É a fruta que não frequentou academia, não fez intercâmbio, não aprendeu inglês.
Defendê-lo, hoje, é quase um ato político. Um gesto de memória e de teimosia. O sapoti segue ali, doce, íntegro, fiel a si mesmo — enquanto o mundo, esse sim, parece ter azedado. (4)
Nelson Cunha, Nova Lima - MG

Anotações do destinatário:
(1) Você que plantou? Se sim, meu elogio. Você está fazendo pelos sapotizeiros nas Gerais o que John Chapman fez pelas macieiras nos Estados Unidos.
(2) Os operadores de caixa dos supermercados estão confusos desde então, embora continuem hábeis em diferenciar as bananas dos abacaxis. Qualquer dia ainda vou aderir ao self-checkout.
(3) Invisível e socialmente derrotado são termos afins.
(4) Quanta doçura apesar do contraste!
Paulo Gurgel

06 fevereiro, 2014

Morenice brasileira

por Nelson José Cunha, de João Monlevade - MG
Nasceram morenos, rechonchudos e com leite a escorrer-lhes das faces sadias. Foram esperados com paciência, anos a fio, para finalmente se apresentarem com essa cara de brasileiros.
Alguns, mais pessimistas, diziam que não iam vingar porque aqui não é o Ceará. Não temos o clima, faz frio e eles não resistiriam.
Insisti e fui premiado com um lote deles, todos rajados e durinhos.
Minha vingança agora é apresentar aos incrédulos essa preciosidade que tem a cor do Brasil e das vestes franciscanas.
Os vizinhos vieram, em fila, vê-los. Acho que duvidaram da notícia que correu rua abaixo: nasceram uns morenos na casa 1014.
Estão agora no ninho que lhes preparei. É assim que se parecem, aninhados depois da arrumação meticulosa.
Trata-se da minha primeira safra de sapotis, expostos à visitação em lugar nobre da cozinha. Não estão maduros ainda, fazem-se esperar como uma noiva antes da apresentação. Precisam agora de calor e carinho para retribuírem com a doçura e o perfume da fruta madura.
Só me resta fotografá-los, dividí-los em punhados menores e deixar que a vizinhança partilhe do banquete.


Manilkara zapota, gratus in hanc domum acciperis! (Sapoti, seja bem vindo a esta casa!)

Nelson,
Ao lado do melão, mamão e peras, os sapotis costumam fazer parte do nosso café matinal. Para asco dos filhos, que não entendem a inclusão dos sapotis no cardápio dos pais.
Parodiando James Carville: É o sabor, estúpidos!
"Se sapoti fosse bom, estava no café da manhã dos hotéis", argumentam.
"Ora, sapoti custa caro, uns 10 reais o quilo", justifico sob o olhar de aprovação da mulher. "Além disso, exige um rígido controle diário do lote para identificar quais deles já estão no ponto".
Estar no ponto é o estado da arte da fruta. Aquilo que só os morcegos manjam.
PGCS

Paulo,
Quando vou ao Ceará, procuro por eles e nem sempre os encontro comestíveis. Acho que não há plantação comercial, daí seu alto preço e raridade. Deve ser fruta de quintal e os que escapam da gula dos moradores, fogem mirrados para o mercado.
Mais fácil achar seu irmão de côr, o kiwi. Fruta da Oceania e menos saborosa. É o que diz meu paladar e o seu. A que se deve o desprezo por essa fruta tão saborosa. Ela tem todos as qualidades de uma boa fruta: pouca casca, pequena semente, muita polpa, resistente ao transporte, árvore produtiva e frondosa, invulnerável à mosca da fruta por sua secreção leitosa, doçura e textura exatas.
Assim como a banana, ele tem o "design" inteligente.
Plantem sapoti, plantem!
Nelson