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31 agosto, 2020

Não deixe que prendam Nara Leão

Cacá Medeiros Filho

O ano era 1966. Castelo Branco, o primeiro Presidente da ditadura, estava terminando o mandato. O regime ia promover uma "eleição indireta" para escolher o novo Presidente, sendo o General Costa e Silva o imbatível candidato oficial. Nara Leão comentou, em uma entrevista a um matutino carioca, que achava certa a escolha de um civil para a Presidência da República e afirmou, ainda, que considerava os exércitos desnecessários e prepotentes.
As declarações da musa da bossa nova chocaram a cúpula militar. Quase imediatamente, o gabinete do Ministro da Guerra enviou ao Ministério da Justiça uma representação contra Nara Leão, responsabilizando-a criminalmente, com pena que poderia atingir de um a cinco anos de cadeia, de acordo com o artigo 14 da Lei de Segurança Nacional.
Na opinião de vários militares, a entrevista, dentro de um plano de agitação que a cantora estaria participando, poderia ter algum dos seguintes objetivos: colocar o povo contra a eleição no Congresso do futuro Presidente; fortalecer o MDB para o lançamento de um candidato civil ou promoção pessoal numa tentativa de desmoralizar a "Revolução de março".
O documento enviado à Justiça continha uma análise digna de figurar nos anais do FEBEAPÁ: "a cantora preconiza a escolha de um Presidente civil, que governaria o país nos moldes estatais, guiado por uma política nacionalista que nada difere da linha nitidamente comunista". É bom lembrar que esse fato ocorria antes do período mais negro da ditadura, iniciado após a promulgação do AI-5, em dezembro de 1968.


Nara Leão rebateu a acusação, classificando de "cômico o papel de alguns militares, quando declaram que participo de uma conspiração. Quem sou eu para conspirar? A comicidade desses homens que consideram o regime ameaçado por conta de uma opinião pessoal de uma cantora, demonstra como o Brasil está afetado na sua liberdade".
A solidariedade à Nara foi ampla, abrangendo a população em geral, seus inúmeros fãs, artistas e intelectuais. Um admirável exemplo foi o poema, singelo e irônico, que Carlos Drummond dedicou ao tema e que transcrevo a seguir.


(texto sugerido por Jaime Nogueira)

O dia em que a ditadura matou Mané Garrincha

13 julho, 2011

Escreva Pola, Escreva

Que Pola é essa?
Não, não é uma pergunta feita pelo Cebolinha!
Pola é a escritora que encantou o mundo literário em Paraty.
Fernando Gurgel

PARATY FASHION WEEK por Tutty Vasques.

Seria uma injustiça, além de flagrante descortesia, dizer “enfim, uma cabeça pensante bonita pra dedéu”! Intelectual, do gênero que for, não é, necessariamente, feio! Está mais para esquisito pelo conjunto da obra de seus hábitos. Nada nunca tão inusitado quanto as características descritas na apresentação que a imprensa brasileira fez de Pola Oloixarac, a coisa mais fofa da Flip que hoje se encerra. Ela é, segundo o noticiário, linda, profunda, surfista, inteligente, pin-up, tecnológica, nerd, filosófica, blogueira, antropofágica, totalmente “marxista de direita” (como se define citando Alexandre Kojève). Faz snowboard, pinta as unhas de azul, mora à beira de um lago gelado, enfim, só faltava, em vez de argentina, ser boa motorista e cozinheira de mão cheia.
Não fosse o escritor português valter hugo mãe dar uma ofuscadinha na moça com sua verve literária encantadora e seu fascínio pelo Brasil, o frisson em torno da dela teria fugido de controle na Flip. “Que Pola é essa?” – perguntavam-se uns aos outros os intelectuais. O sobrenome Oloixarac rendeu-lhe o apelido “Mulher-Vulcão”. Pintou em Paraty uma espécie de Gisele Bündchen da literatura mundial. Sem nenhum demérito ao debate cultural proposto pelos organizadores do evento, foi muito bom para os participantes do encontro só pensar naquilo por alguns bons momentos da festa.
Depois de Pola, dificilmente a Flip escapará da escalação de uma musa em seu cardápio de atrações. E, pelo ti-ti-ti da beira do cais, a mais forte candidata ao posto em 2012 é a francesinha Tristane Banon, jornalista e escritora que chamou Dominique Strauss-Kahn de “chimpanzé no cio” em processo de tentativa de estupro que move em Paris contra o ex-diretor-gerente do FMI. Além de corajosa, ela usa calça jeans rasgadas na coxa, adora cachorro, vem de família socialista e, fetiche dos fetiches nesse meio, é completamente loura.