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24 março, 2024

Modos à mesa

Diz-se que estamos a apenas três refeições da anarquia, por isso, quando a fome bate no Bosque Grande, é importante que três amigos encontrem algo para comer o mais rápido possível. Criado usando fantoches de ação ao vivo por Rebecca Manley, este curta sombrio em quadrinhos mostra duas coisas: primeiro, sem comida estamos praticamente acabados. Em segundo lugar, mesmo quando a civilização está desmoronando a nosso redor, nunca devemos esquecer a importância das boas maneiras à mesa.


Via Kuriositas

18 abril, 2019

Fome, manga e o caroço da memória

Lúcio Verçoza (*)
Nem só de manga vivem os homens e mulheres, eles também se alimentam de memória. As narrativas da história oral se misturam com o presente. Há várias décadas, em uma época na qual o centro de Maceió era margeado por sítios, uma criança atravessou a Rua Barão de Atalaia e pulou a cerca em direção às inúmeras mangueiras, cajueiros e plantações de coco. Quando estava em cima do galho do cajueiro, o menino foi surpreendido pelo estampido. Não conseguiu correr, dizem que já caiu morto. O tiro partiu da espingarda do proprietário da terra. Após a autópsia, descobriram que no estômago do garoto só havia um pouco de caju, recém-chupado.
O tempo passou, no terreno encontra-se atualmente o campus do Instituto Federal de Alagoas (antiga Escola Técnica). Na hora do recreio, vários jovens caminham pelo pátio, alguns deitam sob a sombra, talvez na mesma posição em que caiu o corpo sem vida. Ninguém sabe o nome do menino assassinado por tentar saciar a fome. Durante certo tempo, a área ficou conhecida como “Sítio do Doutor Caju”. Hoje poucos conhecem essa história. Sem a força da história oral, talvez esse fato não tivesse chegado até o presente. É como o caroço de manga, uma semente que sobrevive porque não pode ser engolida ou digerida. Uma história que foi contada de uma geração para outra com o sentido de não ser esquecida.
Retornando ao presente, a atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que a agricultura não é assunto de segurança nacional no Brasil porque “nós não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”. Como se nossas cidades fossem um imenso pomar sem cercas, muros e concreto armado. Como se fosse possível plantar sem ter acesso à terra. Como se fosse simples comer frutas na cidade sem a mediação do dinheiro. Como se qualquer quantidade de viventes com fome pudesse ser considerada pouca.
Em pesquisa rápida na internet é fácil encontrar notícias sobre mortes de jovens que buscavam frutas. Não se trata de matérias antigas, a maioria do século 21. Uma das que mais chama a atenção, de dezembro de 2016, tem o seguinte título: “Garoto é baleado e morre ao subir em muro para pegar manga”². O menino tinha 13 anos de idade e vivia no sul da Bahia.
Não é que um punhado de manga ou de caju tenha mais valor do que a vida de uma criança, mas, da perspectiva de quem efetuou o disparo, se trata do direito sagrado de defender a sua propriedade privada – e esse direito sagrado estaria acima de tudo e de todos. Com a posse de armas facilitada, é provável que a coleta de manga se torne algo ainda mais perigoso.
Mas nem só de manga e memória vivem os homens e mulheres, também se alimentam de futurar. De sonhar com mangueiras que não saciem somente o estômago. Com uma sombra que não caiba apenas quem está dentro do terreno rodeado de cerca elétrica. Um mundo em que se possa andar com seus amigos, sem ser discriminado. De atravessar o tempo mais adverso carregando o futuro germinado na semente da memória.

(*) Lúcio Verçoza é Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autor do livro “Os homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde” (Edufal-Fapesp, 2018). Este artigo foi originalmente publicado no Jornal GGN - 16/04/2019

14 dezembro, 2016

No céu tem pão?

Escrevi o texto abaixo em agosto de 2005, indignado contra práticas que corrompem toda a sociedade e as instituições brasileiras. À época, acreditava que as investigações e as punições iriam finalmente alcançar aqueles que realmente roem as entranhas da sociedade, roubando-a sistematicamente e deixando à míngua aqueles que não dispõem do mínimo para sobreviver. Onze anos se passaram, as investigações se aprofundaram, mas, infelizmente, seletivas e eivadas de cunho apenas político, o que está levando o País a situações cada dia piores. E os Anselmos ainda almejam por um pedaço de pão, aqui ou no céu. Pão que, a julgar pelo andar da carruagem, nunca adormecerá sua fome.
Fernando Gurgel
"Mãe, no céu tem pão?"
Quando li a frase acima pela primeira vez, citada em um poema de Soares Feitosa, em seu Jornal da Poesia (http://www.jornaldepoesia.jor.br/francisco.html), fiquei chocado e sempre que a leio me dá um nó no peito e fico muito revoltado contra este estado de coisas.
Pensei que era criação do poeta e fiquei imaginando o que ele poderia ter visto que levou-o a imaginar uma cena tão cruel como aquela. Infelizmente, a vida sempre supera a ficção e a frase saiu da boca de um ser humano. Uma criança nos estertores da morte por inanição e o fato pode ser comprovado facilmente através de pesquisa na internet.
Como exemplo, cito um relato da Vara da Infância e Juventude de Belo Horizonte que diz ser "do pequeno Anselmo, de apenas 4 anos de idade, da Favela de Pirambu, em Fortaleza, no Ceará, que delirando de febre, nos estertores da morte, com os olhos súplices, sussurrava: "Mãe, no céu tem pão?"
Pois é, são dos pequenos Anselmos espalhados por este triste solo e que morrem sonhando com aquilo que para nós são migalhas e que para eles é um sonho cada dia mais irrealizável.
Nem se compara aos nossos sonhos e fantasias do dia a dia. Sonhos que pensamos poder realizar através de nossa luta para possibilitar o tão sonhado pão para todos. E o nosso sonho para que isto aconteça é muito mais simples de se tornar realidade, pois depende apenas de homens com vergonha na cara e honestidade em todas as suas ações. Só isso.
Sempre achei, portanto, que apropriação de dinheiro ou utilização indevida de bens públicos deveriam ser equiparados a crimes hediondos, pois esta prática resulta nas mesmas consequências de atos cometidos por assassinos em série e, o que é pior, de forma lenta e cruel.
O dinheiro que falta, tirado do erário, é o mesmo que falta para evitar que milhares morram sem ter um pão seco. É o mesmo que falta para evitar mortes a rodo em filas de hospitais públicos. É o mesmo que falta para o saneamento básico de favelas imundas onde a doença está presente em cada residência insalubre.
Mas um País tão grande, governado por pessoas tão pequenas, tornou-se tão vulnerável quanto um castelo construído com peças de dominó onde a peça defeituosa abala todo o conjunto. E, neste caso, com o agravante de que o construtor reluta em jogar no lixo as peças que comprometem a estrutura.
Não sabemos quem são os bandidos que solapam nossas instituições. Porém, sabemos que são como um tiro certeiro no sonho dos que acreditaram que, afinal, as coisas poderiam mudar para melhor.
Não sabemos, também, o tamanho das irregularidades cometidas e onde acontecem/aconteceram, mas, pelos relatos - infelizmente, muito seletivos e pouco confiáveis - são atos desonestos e que comprometem a credibilidade de todo o sistema, impedindo que este País mude sua face tão desumana com tranquilidade.
Se este castelo desabar, muitos Anselmos ainda terão que sonhar, na hora da morte, com um céu cheio de pães enquanto seus pais ainda sofrerão muito até morrerem à míngua nesta terra cheia de cães.
Com a falta de credibilidade vigente e com as leis frouxas que temos, as poucas esperanças que temos, de vermos punições exemplares e isentas de cunho político, talvez não se concretizem. Porém, quando formos votar novamente, por maiores que sejam nossos interesses envolvidos, por favor, pensem apenas na frase do pequeno Anselmo para tentar banir os desonestos da vida pública.
E tenham sempre isto em mente: políticos e servidores públicos desonestos estão cometendo crime hediondo.

02 dezembro, 2007

Do ofício de dilapidar conselhos


A um homem faminto, se você der um peixe, mitigará a sua fome apenas uma vez. Mas se, em vez do peixe, você lhe der um caniço para que pesque, ele provavelmente morrerá de fome antes de fisgar algum.
O mar não está, como nunca esteve, para aprendiz de pescador.