Mostrando postagens com marcador Pará. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pará. Mostrar todas as postagens

19 março, 2026

Doutor Sabugosa

Nelson José Cunha
Abro o mapa sobre a mesa. Um pingo de tinta num verde imenso. No centro, quase invisível, um nome: Baião. Era para lá que eu iria: cinco estudantes – eu, de medicina, mais um agrônomo entusiasmado, dois colegas de medicina e um engenheiro –, todos cheios de curiosidade, a caminho do Projeto Rondon. A vida profissional ensaiando os primeiros passos.
A viagem começou com um susto. Um DC-3 sobrevivente da guerra, com hélices cansadas. Parecia atravessar décadas. Em Belém, o trem de pouso travou. Um sargento surgiu, voz firme:
· Vamos queimar combustível para evitar incêndio no pouso de barriga!
O avião pousou. As rodas finalmente tocaram o chão.
Baião ficava um dia inteiro rio Tocantins acima. Subimos em lancha da Marinha. À noite, os carapanãs zumbiam alto. O ar estava pesado de umidade. O sono vinha em redes penduradas entre mastros.
Chegamos pelo trapiche, um ancoradouro de madeira. Hospedagem no colégio das irmãs. Dieta de peixe, farinha e mais nada.
Na primeira manhã, após o café com beijú, distribuímos tarefas. Nosso agrônomo falava do milho híbrido. Folhetos, gráficos, slides — o futuro em papel. No Sindicato Rural, formamos a claque. Ele falava de resistência, espigas fartas, colheita dobrada. Seus olhos brilhavam. Desde Fortaleza só falava nisso. Levou o apelido de Doutor Sabugosa.
Encerrada a palestra, o prefeito abriu a palavra. De uma janela, um caboclo se levantou, tímido, chapéu nas mãos:
· Qui mi discupe, vossemecê… mais nóis já provemo desse mio aqui… mais as galinha injetaro ele. Elas num gosta de caroço grande.
Naquele instante, ficou claro que precisávamos aprender a escutar as galinhas.
Coube-me o ofício das consultas. Quinto ano concluído. Gripes, verminoses, pequenas suturas — medicina possível num estojo de remédios. Eu andava com os bolsos cheios de castanhas-do-pará. Sobrevivíamos àquela dieta monótona.
· Doutor, tem um cabeça de siri aí fora querendo se consultar. Já disse que só amanhã, mas ele é um orelha de pau e não entende.
· Qual a queixa dele?
· Fígado zangado com dor de dentro, teve um esquentamento por causa do chicote de chuva da semana passada.
Assim eram os dias tentando adivinhar expressões amazônicas. Entre uma consulta e outra, ajudávamos na roça, aprendíamos a fazer farinha e disputávamos partidas de futebol no campo de terra batida. Os moradores nos ensinavam a tirar leite de castanha e a reconhecer o cantar dos pássaros.
Nem só de verminoses e gripes viviam as consultas. Numa manhã, um rapaz de traços indígenas pediu ajuda para um parto complicado. Descemos o rio numa voadeira. A casa era uma palafita no igarapé. Madeira, folhas de palmeira, chão rangendo. A menina de dezessete anos estava magra, o feto não se movia. O estetoscópio confirmou: o coração não batia. Estava sentado, pélvico. A parteira aguardava. Lembrei dos meus plantões na maternidade, estavam valendo na selva, segui puxando o bebê devagar, para não ferir além do inevitável. Primeiro as pernas, depois o tronco, por fim a cabeça. O choro não veio. A menina chorou baixo. O rapaz recebeu o pequeno corpo embrulhado em pano e permaneceu imóvel. Controlamos o sangramento. Dei instruções de higiene. Pedi que arrancassem uma folha da parede para entrar ar.
O Tocantins parecia mais largo na volta.
As redes balançaram por mais trinta dias. Consultas, carapanãs, futebol com moradores e conversas com o padre local – um holandês magro, de óculos, que trocara Amsterdã pela margem do rio. Falávamos de queijos, de canais e da proverbial mesquinhez dos patrícios. Ele se espantava com nossa falta de pressa e ria da nossa dificuldade em entender o sotaque dos caboclos. Certa tarde, trouxe um queijo amarelo, lembrança da terra, e o partilhamos com os moradores, que estranharam o gosto forte.
A floresta nos ensinou o Brasil, e nós aprendemos que há saberes que os livros ainda não alcançam.

Nelson,
Ao utilizar-se do elemento sublinhado e clicável que incluí em seu texto, você poderá acessar a descrição de como foi a minha participação no Projeto Rondon, em 1970. Certamente para concluir que a minha experiência, tendo como pano de fundo a Cidade de Deus, no Estado da Guanabara, foi bem mais amena do que a sua extensão universitária no Estado do Pará.
~ Paulo

25 outubro, 2024

A cidade dos sonhos das fake news

Trairão é um município brasileiro do Estado do Pará.
(Desambiguação com Michel Trairão, político brasileiro.)
No rio desta cidade foi pescado uma traíra, peixe de água doce, de aproximadamente 40 kg; então todos começaram a referir-se ao rio como Trairão. Tempos depois, chegou a vez da cidade. Foi quando a população local, reunida na Ágora, optou por designá-la pelo nome do piscoso rio.
Em Trairão, não há emissora de rádio e TV nem jornal, site ou blog de notícias. Tudo o que acontece de "notícia" no município é levado ao conhecimento de seus 15 mil moradores por meio do WhatsApp. Eles formam dezenas de grupos que só se atualizam pelo aplicativo.
Em Trairão, "o aplicativo da Meta é onipresente, para o bem e para o mal".
Fontes: Pública (21/10/2024) e Wikipédia

20 agosto, 2022

Estímulo à leitura





Uma escola infantil de Juruti, município de 60 mil habitantes no oeste do Pará, criou uma interessante iniciativa para estimular a leitura entre as crianças. Com a instalação no pátio dessa instituição de um suporte com capacidade para doze redes, nas quais os pequenos estudantes podem se deitar enquanto leem com todo o conforto.

(notícia compartilhada por Jaime Nogueira)

24 fevereiro, 2018

Mariana, Barcarena...

Além de um vazamento de restos tóxicos de mineração, que contaminou diversas comunidades de Barcarena, no Pará, a gigante norueguesa Hydro Alunorte usou uma tubulação clandestina de lançamento de efluentes não tratados em um conjunto de nascentes do rio Muripi, aponta um laudo divulgado nesta quinta-feira (22) pelo Instituto Evandro Chagas.
Segundo o especialista (Marcelo de Oliveira Lima, que assina o laudo oficial), "a população usa estas águas para recreação, consumo e captura de peixes", o que poderia levar a poluição também para o solo e o organismo dos moradores. Resultados de testes feitos no cabelo e pele dos vizinhos à barragem devem ser divulgados nas próximas semanas.
O laudo do Instituto Evandro Chagas aponta que a concentração de elementos tóxicos (alumínio, chumbo, soda cáustica etc.) nos rios da região extrapolaram os limites estipulados pelo Ministério da Saúde. Os níveis de alumínio nos rios estavam 25 vezes mais altos que os estabelecidos pela legislação e o pH registrado nas águas foi 10  extremamente alcalino, em decorrência do derrame de soda cáustica, usada no processo de beneficiamento da bauxita, matéria-prima do alumínio.
Ler esta notícia na íntegra no site BBC Brasil.

Mariana (pela Samarco), Barcarena (pela Hydro)...
Qual será o próximo local? Meu palpite: costa brasileira, na área do pré-sal.