Nelson José Cunha
Abro o mapa sobre a mesa. Um pingo de tinta num verde imenso. No centro, quase invisível, um nome: Baião. Era para lá que eu iria: cinco estudantes – eu, de medicina, mais um agrônomo entusiasmado, dois colegas de medicina e um engenheiro –, todos cheios de curiosidade, a caminho do Projeto Rondon. A vida profissional ensaiando os primeiros passos.A viagem começou com um susto. Um DC-3 sobrevivente da guerra, com hélices cansadas. Parecia atravessar décadas. Em Belém, o trem de pouso travou. Um sargento surgiu, voz firme:
· Vamos queimar combustível para evitar incêndio no pouso de barriga!
O avião pousou. As rodas finalmente tocaram o chão.
Baião ficava um dia inteiro rio Tocantins acima. Subimos em lancha da Marinha. À noite, os carapanãs zumbiam alto. O ar estava pesado de umidade. O sono vinha em redes penduradas entre mastros.
Chegamos pelo trapiche, um ancoradouro de madeira. Hospedagem no colégio das irmãs. Dieta de peixe, farinha e mais nada.
Na primeira manhã, após o café com beijú, distribuímos tarefas. Nosso agrônomo falava do milho híbrido. Folhetos, gráficos, slides — o futuro em papel. No Sindicato Rural, formamos a claque. Ele falava de resistência, espigas fartas, colheita dobrada. Seus olhos brilhavam. Desde Fortaleza só falava nisso. Levou o apelido de Doutor Sabugosa.
Encerrada a palestra, o prefeito abriu a palavra. De uma janela, um caboclo se levantou, tímido, chapéu nas mãos:
· Qui mi discupe, vossemecê… mais nóis já provemo desse mio aqui… mais as galinha injetaro ele. Elas num gosta de caroço grande.
Naquele instante, ficou claro que precisávamos aprender a escutar as galinhas.
Coube-me o ofício das consultas. Quinto ano concluído. Gripes, verminoses, pequenas suturas — medicina possível num estojo de remédios. Eu andava com os bolsos cheios de castanhas-do-pará. Sobrevivíamos àquela dieta monótona.
· Doutor, tem um cabeça de siri aí fora querendo se consultar. Já disse que só amanhã, mas ele é um orelha de pau e não entende.
· Qual a queixa dele?
· Fígado zangado com dor de dentro, teve um esquentamento por causa do chicote de chuva da semana passada.
Assim eram os dias tentando adivinhar expressões amazônicas. Entre uma consulta e outra, ajudávamos na roça, aprendíamos a fazer farinha e disputávamos partidas de futebol no campo de terra batida. Os moradores nos ensinavam a tirar leite de castanha e a reconhecer o cantar dos pássaros.
Nem só de verminoses e gripes viviam as consultas. Numa manhã, um rapaz de traços indígenas pediu ajuda para um parto complicado. Descemos o rio numa voadeira. A casa era uma palafita no igarapé. Madeira, folhas de palmeira, chão rangendo. A menina de dezessete anos estava magra, o feto não se movia. O estetoscópio confirmou: o coração não batia. Estava sentado, pélvico. A parteira aguardava. Lembrei dos meus plantões na maternidade, estavam valendo na selva, segui puxando o bebê devagar, para não ferir além do inevitável. Primeiro as pernas, depois o tronco, por fim a cabeça. O choro não veio. A menina chorou baixo. O rapaz recebeu o pequeno corpo embrulhado em pano e permaneceu imóvel. Controlamos o sangramento. Dei instruções de higiene. Pedi que arrancassem uma folha da parede para entrar ar.
O Tocantins parecia mais largo na volta.
As redes balançaram por mais trinta dias. Consultas, carapanãs, futebol com moradores e conversas com o padre local – um holandês magro, de óculos, que trocara Amsterdã pela margem do rio. Falávamos de queijos, de canais e da proverbial mesquinhez dos patrícios. Ele se espantava com nossa falta de pressa e ria da nossa dificuldade em entender o sotaque dos caboclos. Certa tarde, trouxe um queijo amarelo, lembrança da terra, e o partilhamos com os moradores, que estranharam o gosto forte.
A floresta nos ensinou o Brasil, e nós aprendemos que há saberes que os livros ainda não alcançam.
Nelson,
No elemento sublinhado e clicável do seu texto, você encontrará a descrição de como foi a minha participação no Projeto Rondon, em 1970. Certamente para concluir que a minha experiência, tendo como pano de fundo a Cidade de Deus, no Estado da Guanabara, foi bem mais amena do que a sua extensão universitária no Estado do Pará.
~ Paulo

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