30 janeiro, 2026

Azul e Cinzas

Nelson José Cunha
Tenho o costume de puxar conversa com quem se senta a meu lado no avião. Os filmes não me interessam; a comida, muito menos - nem boa, nem farta. Nem sempre sou bem-sucedido.
Naquela vez, tive sorte. O passageiro era um piloto em férias. Milhares de horas de voo e histórias. Contou-me esta.
O pedido veio em tom de súplica, quando a fila de embarque ainda serpenteava pelo saguão. Uma mulher de olhos aflitos destacou-se do grupo e aproximou-se de Greta, comissária alemã da KLM, com duas décadas de profissão nos ombros.
- Por favor - disse a passageira, a voz carregada de emoção. - É o sonho dela.
Uma vida inteira sonhando em viajar na primeira classe. A senhora poderia fazer essa gentileza para a minha adorável mãe?
Greta sentiu o conhecido nó de impotência. O regulamento era inflexível: não havia upgrade gratuito. Mas aquele olhar não pedia um favor; pedia um milagre.
- Não posso mudar a classe - respondeu, suavizando a negativa com um sorriso profissional. - Mas diga-me o assento dela.
Prometo que será tratada como uma passageira da primeira classe.
A gratidão inundou o rosto da mulher.
- 34B, corredor. Obrigada. Muito obrigada.
Horas depois, com o Airbus estabilizado sobre os céus da America, Greta preparou seu pequeno ato de rebeldia contra as regras inflexíveis da companhia. No carrinho, dispôs uma taça de espumante italiano, um pequeno pote de caviar com torradas, uma rosa vermelha e um cobertor branco de cashmere. Era tudo o que a burocracia lhe permitia.
Caminhou até o assento 34B. A passageira estava sentada sozinha, com a mão pousada sobre uma mochila no colo.
- Onde está sua mãe, senhora? - perguntou Greta, estranhando o assento vazio ao lado.
A mulher sorriu. Um sorriso doce e melancólico. Sem pressa, abriu a mochila e retirou um elegante vaso de cerâmica azul.
- Aqui - disse, com serenidade. - São suas cinzas. Estou levando-a ao Rio Hudson em Nova York seu lugar favorito no mundo. O sonho dela era vê-lo uma última vez… de primeira classe.
Greta não hesitou. A vida inteira em grandes altitudes lhe ensinara que o extraordinário mora nos detalhes. Tomou o vaso com o cuidado de quem segura um recém-nascido.
-Com sua permissão - disse apenas.
Caminhou até a primeira classe, silenciosa e quase vazia àquela hora. Escolheu o melhor assento: 1A, junto à janela. Acomodou o vaso, ajustou o cinto de segurança ao redor da cerâmica, cobriu-o com o cobertor de cashmere e dispôs a taça e o caviar na bandeja. A rosa ficou ao lado, junto à janela, onde o entardecer começava a dourar as nuvens.
Pela primeira vez em trinta anos, Greta violava uma regra fundamental. Mas, diante daquele assento ocupado por uma última viagem, teve a certeza de estar obedecendo a uma lei mais antiga: a de honrar um desejo, por mais impossível que pareça.
E quando a luz do pôr do sol incendiou a cabine, pareceu-lhe que, para a passageira do assento 1A, a vista era, de fato, simplesmente espetacular. O Rio Hudson, lá embaixo, em todo seu esplendor.

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