por Nelson José Cunha
Esta é a história de uma minhoca que pensa demais.
Ela ama, organiza, protege e decide por outras.
Pode ser lida como uma fábula sobre a vida debaixo da terra ou como uma história sobre o que acontece quando alguém acredita saber o que é melhor para todos.
Leia sem pressa. O resto o chão conta.
Nascer diferente no minhocário foi erro na curva molhada. Vim com cabeça, e ela pensa. No resto, sou igual às minhas irmãs: sem olhos, sem ouvidos, cinco corações latejando em fila. Talvez por isso transbordo amor e muco.
Aqui falamos com o corpo. Abraços longos, toques rápidos, vibrações que viajam pelo húmus levando mensagens. Não temos banheiros separados; carregamos no corpo ambos os sexos. Os humanos chamam-nos hermafroditas. Nós nos chamamos simplesmente minhocas - ou Lumbricus, diziam os romanos.
Escavamos túneis para arejar raízes. Nosso excremento é o pão das nossas vizinhas, as árvores, ou tudo o que se sustenta por raízes. Silenciosas, úmidas e, por que não, orgulhosas.
Mas a minha cabeça me impedia de entrar nos túneis mais estreitos. Em compensação, aprendi a planejar, escrever poesias no barro com a ponta do corpo.
Tornei-me empresária do subsolo: distribuía húmus, traçava rotas conforme o murmúrio das raízes. Ganhei respeito e admiração,mas tambem inveja, ciúmes e uma paixão que não pedi.
Ela surgiu um dia - ágil, delicada, deslizando em curvas que eram versos inteiros. Aproximou-se com toques que não pediam licença. Apaixonamo-nos sem palavras. Cada encontro era uma mensagem cifrada na pele. Cada curva, uma estrofe. Nosso amor vibrou no escuro e, encostadas languidamente em raízes, sonhamos em crias.
Viagem à Superfície
Subi pela primeira vez num impulso de curiosidade e temor. A capa de muco e folhas colava-me ao chão como uma segunda pele. Avançava tateando: grama áspera, pedrinhas rolando sob o corpo, orvalho frio escorrendo como lágrimas. O Sol queimava - lâmina quente cravada nas costas.
Tudo era estranho e irresistivelmente belo. Senti lufadas de vento, seres curiosos que me tocavam e feriam. Outros se aproximavam e fugiam. Ao final voltei.
A Conquista do Poder
O minhocário já não era o mesmo. Túneis sabotados. Raízes secas. Toques hostis onde antes havia toques mansos. Percebi as alianças tramadas na lama. As traições. Diferente delas, eu penso.
Adotei uma estratégia fria. Pactos com as minhocas-líderes ,- que sempre querem algo em troca. E tiveram. É a política.
Toques combinados. Vibrações que prometiam os melhores túneis - ou anunciavam o frio lento da exclusão. Antecipar desejos e medos virou segunda natureza.
Às vezes, no escuro, sentia um dos cinco corações bater fora do compasso. Não sei se é culpa. O poder é uma arte de tocar e afastar.
O Pescador
Enxada. Terra rasgada com violência e fúria. Pânico. Corpos se retorcendo em fuga. Algumas irmãs colhidas pelo ferro - cheiro metálico de morte misturado ao húmus. Num estalo, lembrei do velho sapato. Nosso estorvo habitual.
- Para o sapato! - vibrei com toda a força.
Corremos todas. Aglomeramo-nos no couro roto, mas a lâmina atingiu o alvo. O sapato voou, arremessado com raiva pelo pescador que nunca soube de nós.
Ficamos imóveis. Terra tremendo. Terra acalmando. Quando o silêncio voltou, o respeito também voltou. Mas agora carregava um gosto diferente - medo disfarçado de gratidão. Política!
O Nascimento de um Mundo Novo
Depois da enxada, vieram crias com cabeça. Túneis precisaram ser alargados. Caminhos, repensados. A inteligência, antes rara, agora brotava em vários corpos. Irrigava tudo.
Percebi que podia salvar. Percebi que podia desequilibrar. Ensinei colaboração. Ensinei vigilância. Às vezes, no meio da noite úmida, sentia vibrações de descontentamento - irmãs que sonhavam com os túneis estreitos de antigamente. Pensar é bom, mas custa. Vidas mais simples custam menos.
Eu as calava com toques suaves que prometiam proteção. Proteção ou prisão? A diferença é fina como uma raiz capilar. A superfície ficou lá em cima, com seu Sol cegante e seus perigos. Nossa revolução foi silenciosa, tátil, lenta.
Epílogo
Hoje o minhocário é planejado. Equilibrado. Nutrimos raízes com precisão. Escutamos o solo. A paz reina. Mas a vigilância nunca dorme - é o preço.
Entre amor, estratégia e lama, aprendi que a força bruta é um sopro passageiro. A inteligência, aplicada com cuidado, constrói mundos. Aplicada sem cuidado, também os destrói.
No silêncio úmido, sob o emaranhado das raízes que sustentamos, permito-me uma contração lenta - algo entre sorriso e tremor. Uma vibração longínqua atravessa o solo. Não sei se é ameaça. Não sei se é convite.
Apenas escuto, com os cinco corações fora de compasso, e continuo escavando. É o futuro chegando.
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