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16 junho, 2024

29 setembro, 2023

Autópsia

A minha autópsia revelalará várias mortes.
Suicídios, atentados, punhaladas nas costas.
Talvez até revele a primeira vez que morri.

Quando eu brincava de pipa, morri cada vez que "cortaram" meu pião


- era assim que chamávamos no Campo Grande da minha infância.
E eu era muito ruim no "bola ou búlica", o que me provocou diversas mortes.
O nascimento da minha filha e do meu filho foram pra mim um tipo de morte.
Daí, houve a separação e então morri.

Amores e desamores foram um jeito de morrer.
E teve aquela vez em que me acreditei imortal e permiti que minha imortalidade fosse testada ao limite, até ser desmentida.
Me embriagar e me drogar desbragadamente com certeza foram auto-assassinatos.
Bem como quando deixei de ser virgem e não foi tão bom quanto eu imaginava.

E cada medo e cada raiva e cada dor, o que foram?
Mortes.
Naquele dia em que perdi aquele gol e naquele outro dia em que levei aquela pedrada na cabeça eu certamente fui vítima de morte.
E quando caiu meu primeiro dente?
E quando tive todas as doenças?

E quando me deparei com minha própria insignificância?
E quando saí do útero da minha mãe e descobri que já estava morrendo?
Até a próxima esquina.

Thread (sequência de tweets) de Mario Lago Filho

"bola ou búlica", jogo de bola de gude (bila, no Ceará) em três buracos no chão (búlica). Post em fase de elaboração no Blog EM.

05 maio, 2020

Gosto de dizer: minha pátria é a língua portuguesa

A UNESCO aprovou por unanimidade 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. A data celebra a importância cultural e histórica do idioma para toda a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) -- idioma que tem mais de 260 milhões de falantes ao redor do mundo.
No Brasil, o idioma português também é celebrado durante o Dia Nacional da Língua Portuguesa, em 5 de novembro. Esta data foi instituída no país através do decreto-lei n.º 11.310/2006.


Com Fernando Pessoa, por meio de seu heterônimo Bernardo Soares, digo: "Minha pátria é a língua portuguesa". Sugiro, aliás, reouvir esse belo texto, "Gosto de dizer", que fala da importância da literatura, lido por Yuri Vieira:



"Gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa..." CV

06 março, 2019

Auri sacra fames

O Dr. Freud relata que existem razões peculiares profundas em nosso subconsciente, porque o ouro, em particular, deve satisfazer instintos fortes e servir como um símbolo. As propriedades mágicas, com as quais o sacerdócio egípcio antigamente impregnava o metal amarelo, ele nunca as perdeu de todo. No entanto, enquanto o ouro como reserva de valor sempre teve patronos dedicados, é, como o único padrão de poder de compra, quase um parvenu. Em 1914, o ouro ocupara essa posição na Grã-Bretanha de jure em menos de cem anos (embora de fato por mais de duzentos), e na maioria dos outros países com menos de sessenta. Pois, exceto durante breves intervalos, o ouro tem sido escasso demais para atender às necessidades do principal meio de moeda do mundo. O ouro é, e sempre foi, uma mercadoria extraordinariamente escassa. Um transatlântico moderno poderia transportar através do Atlântico, em uma única viagem, todo o ouro que foi dragado ou extraído em sete mil anos. Em intervalos de quinhentos ou mil anos, uma nova fonte de suprimento foi descoberta - a segunda metade do século XIX foi uma dessas épocas - e uma abundância temporária se seguiu. Mas, como regra geral, em geral, não houve o suficiente.


Auri sacra fames (latim) = Maldita fome de ouro. Expressão pela qual Virgílio condena a ambição desmedida.

Texto extraído de "Ensaios em Persuasão", por John Maynard Keynes. Publicado pela primeira vez em "A Treatise on Money" (setembro de 1930). https://en.wikisource.org/wiki/Essays_in_Persuasion/Auri_Sacra_Fames
Reprodução de gravura a água forte de Mitelli Giuseppe Maria (Bolonha 1634-1718). https://collezioni.genusbononiae.it/products/dettaglio/7437

Poderá também gostar de ler: Isso é ouro

29 janeiro, 2018

Mensagens de texto - 2

1
— Me escuta.
— Você está digitando, não tem como escutar.
— É uma forma de falar.
— Forma de escrever.
— Cala a boca!
— Não tô falando, tô escrevendo.

2
Um casal idoso aprendeu a enviar mensagens de texto em seus celulares.
A esposa, uma professora de literatura inglesa, com ênfase nos clássicos, era uma romântica. Seu marido, um oficial da marinha aposentado, um cara chato em tempo integral.
Uma tarde, a esposa foi ao Starbuck local para encontrar uma amiga para o café. Enquanto aguardava a chegada da amiga, ela passou a exercitar sua nova habilidade no telefone celular, enviando ao marido uma mensagem de texto romântica: "Se você está dormindo, envie-me seus sonhos. Se você estiver rindo, envie-me seu sorriso. Se você está comendo, envie-me uma mordida. Se você estiver bebendo, envie-me um gole. Se você está chorando, envie-me suas lágrimas. Amo-o."
O marido respondeu: "Estou pegando o lixo."

3
O dinheiro não nasce em árvore

A mulher e seu cão: quem recebe mais mensagens?

O papel do ponto final nas mensagens

20 janeiro, 2017

Os sapatos cruéis

Anna queria ter urgente um novo par de sapatos, e Carlo ajudou-a a experimentar inúmeros pares na loja.
Exausto, ele falou:
"Bem, é isso. É cada par de sapatos em seu lugar."
"Oh, você deve ter mais um par...."
"Não, não é mais um.... Bem, nós temos os sapatos cruéis, mas ninguém iria querer experimentá-los."
"Sim, deixe-me ver os sapatos cruéis!"
"Não, você não entende... Os sapatos cruéis são... "
"Vá buscá-los!"
Carlo desapareceu na sala de trás da loja, por algum momento, e reapareceu carregando uma caixa de sapatos. Ele tirou a tampa e retirou da caixa um horrendo par de sapatos. Mas não era um par qualquer de sapatos, a começar pelo fato que os dois sapatos tinham sido feitos para o pé esquerdo. Um deles tinha o bico em ângulo reto e com divisões internas a fim de que os dedos apontassem para direções impossíveis. E o outro sapato, curvado para dentro como uma cadeira de balanço, tinha lâminas de barbear por dentro para manter o pé no lugar.
Carlo falou, hesitante:
"Vê, eles não são adequados para criaturas humanas..."
"Coloque-os em mim."
"Mas..."
"Coloque-os em mim!"
Carlo sabia que todos os argumentos daí em diante seriam inúteis. Então, ele se ajoelhou diante dela e forçou os pés da mulher a entrarem nos sapatos.
Os gritos foram terríveis.
Anna se arrastou até um espelho, onde poderia ver melhor os pés sangrentos, e  exclamou:
"Eu gosto deles!"
Ela pagou a Carlo e retirou-se.
Mais tarde, naquele dia, alguém ouviu Carlo dizer a uma nova cliente:
"Bem, é isso. É cada par de sapatos em seu lugar. A menos, claro, que você queira experimentar os sapatos cruéis."

http://www.oldielyrics.com/lyrics/steve_martin/cruel_shoes.html

Não estranhem o texto. É a letra de uma canção de Steve Martin que eu procurei traduzir. PGCS

Leitura complementar: Cadarços 1 e 2.

09 julho, 2013

25 agosto, 2007

Confusão em família

"Prezado Sr. Comandante:
Venho, por intermédio desta, pedir a minha dispensa do serviço militar. A razão para isto é bastante complexa e tentarei explicá-la. Meu pai e eu morávamos juntos e possuíamos um rádio e uma televisão. Meu pai era viúvo e eu, solteiro. No andar de baixo, moravam uma viúva e sua filha, ambas muito bonitas e sem rádio e nem televisão. O rádio e a televisão fizeram com que nossas famílias ficassem mais próximas. Eu me apaixonei pela viúva e casei com esta. Meu pai se apaixonou pela filha e também se casou com ela. Neste momento, começou a confusão. A filha da minha esposa, a qual casou com o meu pai, passou a ser minha madrasta. Ao mesmo tempo, porque eu casei com a mãe, a filha dela passou também a ser minha filha (enteada). Além disso, meu pai se tornou o genro da minha esposa que, por sua vez, é sua sogra. A minha esposa ganhou recentemente um filho, que é irmão da minha madrasta. Portanto, a minha madrasta também é a avó do meu filho, que é seu irmão. A jovem esposa do meu pai é minha mãe (madrasta), e o seu filho ficou sendo o meu irmão. Meu filho é então o tio do meu neto, porque o meu filho é irmão de minha filha (enteada). Eu sou, como marido de sua avó, seu avô. Portanto, sou o avô de meu irmão. Mas, como o avô do meu irmão também é o meu avô, conclui-se que eu sou o avô de mim mesmo!!! Portanto, Sr. Comandante, eu peço a dispensa do serviço militar, baseado no fato de que a lei não permite que avô, pai e filho sirvam ao mesmo tempo. Se o senhor tiver qualquer dúvida releia o texto várias vezes (ou tente desenhar um gráfico) para constatar que o meu argumento é realmente verdadeiro e correto.
Assinados: avô, pai e filho.

É um texto que, vira e mexe, aparece (desde a era pré-internet). Por vezes, sob a versão de uma carta deixada por um suicida.