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15 outubro, 2019

HEGEMÔNICA

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O Cebolinha usa sapatos. Mônica, Magali e Cascão, que andam descalços, não têm dedos nos pés. Por que só o Chico Bento tem esse privilégio? A explicação é simples.

02 junho, 2017

Samba, bamba e caçamba

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O pior não é quando a palavra não tem rima. É quando só tem uma ou duas, e o compositor quer emplacar uma rima “rara” sem pagar o preço. Caso típico: “samba”. Tudo bem. Rima com “bamba”. Como, porém, não rima com quase nenhuma outra, ela costuma induzir um processo perigoso na hora de escrever. Bota a palavra lá no fim do verso, e dá um jeito de preencher o meio. A coisa só dá certo quando você consegue esconder esse processo. Quem lê (ou quem ouve) jamais pode suspeitar de que você, que escreveu, fez essa “sacanagem”. Para todos os efeitos, poesia tem que ser igual a mágica – todo mundo sabe que é truque, mas ninguém pode saber qual é o truque. Botou “samba”, rimou com “bamba”, o poeta está quase que certamente condenado a deixar o rabo de fora. A coisa é tão séria que até mesmo quando dá mais ou menos certo costuma dar um pouco errado. Vejam o caso da famosa tentativa feita no refrão de “Esperanças perdidas” (sucesso musical de "Os Originais do Samba"). A tentativa de ocultamento do artifício é dupla, e em ambos os casos um pouquinho canhestra. Primeiro, ao invés de tascar a palavra “samba” para, em seguida, sair-se da enrascada sonora apelando para o famigerado “bamba”, o compositor fez o contrário: começou por onde os outros costumam terminar. Aí, tentou surpreender, usando uma "second best": “caçamba”. Teve plena consciência do perigo de forçar a mão. O que fez? Saiu à cata de uma metáfora que “justificasse” a inserção da palavra naquele lugar, que a tornasse, digamos assim, “inevitável”. Aí, sob a influência da ressonância longínqua dos versos da primeira estrofe (essa, sim, muito bem feita, meditando sobre quanta felicidade possível a vida vai deixando para trás, seja por descuido nosso, seja por azar), chegou a uma aparente solução: comparar-se a uma caçamba cheia de água, mas que só pode subir à superfície puxada pela corda do samba. A metáfora é ótima, tomada em si mesma, e poderia compor um belíssimo refrão, não estivesse totalmente deslocada, rodeada de bobagens e lugares comuns do tipo “já fui batizado na roda de bamba”, e uma desavergonhada rima de “eu juro que não” com “eu tenho razão”. O que nós, que ouvimos, ficamos pensando, naquele átimo de segundo que estraga tudo de bom que a música poderia ter? Pensamos (com toda a razão) que o pobre do compositor gastou tanta energia na busca de uma justificação para essa rima que perdeu o fôlego no meio do caminho, e acabou terminando o refrão às pressas, mais ou menos como alguém que chega finalmente ao fim da escada com um volume pesado e o coloca desajeitadamente em qualquer lugar, para se livrar do fardo.
Moral da história. Rima rara é bom. Raríssima, é um perigo. Já vem carimbada. Para tirar a marca do carimbo, é um custo." Jotavê
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“Não me importo com as rimas
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…”
Alberto Caeiro

Ver também: Rimas difíceis

26 maio, 2017

Rimas difíceis

Os nomes dos políticos, às vezes, são difíceis de rimar. Não me lembro se foi Juca Chaves que disse que era difícil encontrar uma rima para Lacerda.

Um repentista confessava que a classe tinha horror à palavra "cinza". Seu uso seria uma espécie de golpe baixo num desafio. Alguém conhece uma rima para ela?
– Pedir pra rimar cinza / é coisa de ranzinza!

Se for para ter rima aconselho não terminar verso com um dos seguintes vocábulos: probóscide, elfo, sílfide, cúmplice, nenúfar, acróstico, odre (ó), sânscrito, totem, Vênus, virgem, lágrima, êxito, cabocla, ânus, néctar, lápis, tênue, sorgo, paralelepípedo, árabe e derivados (como moçárabe). Para paralelepípedo, serve insípido? Mas, para as demais palavras, está difícil.

Rima para lâmpada – Disseram uma vez ao jornalista português Duarte de Sá que não havia rima para a palavra lâmpada. Ele refletiu um instante e escreveu: – Consta que certo vigário / mandou comprar uma lâmpada/ pra alumiar uma estampa da / Virgem Santa do Rosário! (Colaboração do poeta José Marins – Curitiba) [http://www.caestamosnos.org/rev_trovia/Out_2006.htm]

Acho lindo quando Caetano, em "Rapte-me, Camaleoa", diz: rapte-me, capte-me, adapte-me, it´s up to me (acabaram-se as rimas em português e ele foi buscar mais uma em outro idioma). Em "Meu bem, meu mal", onde ele rima "meu guru" com "porto seguro" e "mãe" com "champanhe", igualmente.

No português do Brasil, as rimas para "mãe" em geral são imperfeitas. Além de "champanhe", temos "acompanhe", "ganhe", "txucarramãe"... Ei, "txucarramãe", não!

Em Portugal, "mãe" não é problema. Leiam estes versos de Fernando Pessoa:
– Tão jovem! que jovem era! / (Agora que idade tem?) / Filho único, a mãe lhe dera / Um nome e o mantivera: / “O menino de sua mãe.”
É que no falar lisboeta "tem" soa normalmente “tãe”. (Aderaldo Luciano)

A rima é uma coincidência de sons, não de letras. Por exemplo, há rima soante perfeita nestes versos de Alphonsus de Guimaraens:
 – Céu puro que o sol trouxe / Claro de norte a sul, / O teu olhar é doce, / Negro assim, qual se fosse / Inteiramente azul.

Ver também: A Rua das Rimas, de Guilherme de Almeida.

30 dezembro, 2011

A rua das rimas

Guilherme de Almeida (*)

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rala de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer, uma mulher que bem me quer.
É uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
mas correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade:
Rua da Felicidade.

(*) Guilherme de Andrade de Almeida, advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Eleito para a Cadeira nº. 15 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Amadeu Amaral, em 6 de março de 1930, foi recebido, em 21 de junho de 1930, pelo acadêmico Olegário Mariano.

Comentários de Marco Antônio Nogueira:
1. O autor resumiu o poema em uma busca incessante pelo seu próprio contentamento. Acaba que a rua dos seus sonhos é construída por ele mesmo. À medida que ele corre atrás da felicidade, a rua se completa. Um melhoramento constante que é fruto do seu próprio anseio. Algo infinito, que depende exclusivamente dele.
2. Comenta-se que GUILHERME DE ALMEIDA fez esses versos para replicar seus adversários, quando era candidato a presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito do Largo são Francisco, que o acusaram de ser um poeta sem rimas. E, por isso, fez A RUA DAS RIMAS.