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30 outubro, 2020

A esculhambação é coisa nossa

por Sergio Rodrigues, Sobre Palavras
A esculhambação é um artigo genuinamente nacional, sobre isso concordam todos os estudiosos. "Esculhambar", o verbo, é um regionalismo brasileiro surgido no século XX com dois sentidos básicos: "criticar ou repreender rudemente" e, na acepção mais usada, "bagunçar, avacalhar".
De onde veio a palavra é mais difícil dizer. Tudo indica que se desenvolveu por formação expressiva em torno de um tabuísmo, isto é, um palavrão, mas a partir desse ponto os filólogos se dividem em dois times aguerridos.
Peço licença aos leitores menos tolerantes com a língua cabeluda das ruas para citar abaixo, em nome do interesse científico, os termos chulos que estão por trás dessa divisão (não há um jeito educado de dizer essas coisas).
Silveira Bueno, que costuma ser criticado por sua falta de rigor, concorda com José Pedro Machado, lexicógrafo de grande prestígio, ao dizer que o sentido original de esculhambar era "arrebentar as nádegas, o cu, a pancadas".
No lado oposto, Antenor Nascentes e Antônio Geraldo da Cunha atribuem ao verbo o sentido primitivo de "ficar com os testículos (colhões) feridos de tanto andar a cavalo".
Minhas simpatias tendem para o segundo time.
(matéria sugerida por Jaime Nogueira)

13 dezembro, 2019

Chuculatera(ê)

A palavra não consta do "Vocábulário Ortografico da Língua Portuguesa" (VOLP), nem de importantes dicionários como o Aurélio (2.ª edição), o Houaiss (1.ª edição) e o Mirador (4.ª edição). Tampouco está no "Dicionário de Gíria" (8.ª edição), de J.B. Serra e Gurgel, nem em alguns "webdicionários" que eu andei consultando. Num blog hispânico, encontrei uma postagem cujo título é "La líbélula chuculetera", que traz um termo foneticamente assemelhado a "chuculatera" (sem tradução para o português, conforme o Tradukka).
Analisando-se, porém, duas canções populares em que a palavra "chuculatera" aparece, supõe-se se tratar de um termo regional para designar algum tipo de chaleira. Talvez seja uma corruptela de "chocolateira", vasilha onde se prepara e/ou serve o chocolate (por extensão, o café e o chá). O Aurélio consigna o termo "chocolateira
1. Em "Boi bumbá", de Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha)
1965, BMG Brasil Ltda.
Ê boi, ê boi
Ê boi do mangangá {bis}
Quem não tem chaculatêra
Não toma café nem chá. {bis}
2. Em "Chuculatêra" (1971), de Antonio Carlos e Jocafi
1971, "O Canto Jovem de Luiz Gonzaga" (primeira faixa do lado A), pela RCA Victor.
Chuculatêra fervendo de café cheinho ou meio
Me dê dois tons de conversa, morena, e baixa a saia do joelho
Que o povo que tá por perto fala muito e acha feio {bis}
Neste LP, Luiz Gonzaga gravou composições de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom e Vinicius, Edu Lobo, Vandré, Gonzaguinha e outros. Os  próprios autores de "Chuculatera", Antonio Carlos e Jocafi, somente gravariam esta canção em 1974, no LP "Definitivamente", pela RCA Victor.

13 de dezembro é o Dia Nacional do Forró. Esta data, que referencia a data natalícia do músico Luiz Gonzaga do Nascimento (13/12/2012), foi instituída pela Lei nº 11.176, sancionada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com origem no Projeto de Lei nº 4265/2001, de autoria da deputada federal Luiza Erundina.

Vídeos c/ "Treze de dezembro" [1] [2] no blog EM.

12 novembro, 2011

Cantando Cuitelinho

Fernando Gurgel Filho, de Brasília
Tenho um amigo calhorda que voltou do pantanal contando um monte de histórias. Deve ser histórias de pescador.
Cuiabá, a porta de entrada do pantanal, tem o apelido de Hell City por causa do calor. Para compensar, a cidade tem também o apelido de “cidade verde”, por causa do grande número de árvores.
Mas nunca alguém havia descrito a cidade como o meu amigo calhorda. Segundo ele, descrição feita por um "Homo serelepis", que estava encantado com a cidade e toda a região pantaneira.
Meu amigo calhorda diz, com ironia, que pescar no pantanal é muito bom. Ah, as brigas com os mosquitos, os répteis assustadores, as onças pintadas espreitando, enquanto o pessoal tenta se equilibrar em cima de um barco passando por redemoinhos... Tudo que um ser humano precisa para ficar alerta. Muita emoção!
E o acampamento? Tinha até um lídimo representante da espécime que os seus parceiros bancários chamam carinhosamente de homo-afetivo. Ao acordar, ele saía da barraca como um semeador de brisas frescas numa manhã dominical, saltitante com os pezinhos descalços molhando os dedinhos no orvalho brilhante da relva verdejante e refrescante. Ufa!
E cantava Cuitelinho bem alto: “Eu entrei no Mato Grosso / Dei em terras paraguaias”, frisando cada palavra, não sabia o meu amigo porquê!
Uma noite de lua cheia, após querer entrar na barraca do nosso amigo, sentou-se à beira do fogo e foi logo falando e gesticulando que ficou encantado com Cuiabá que, segundo ele, tem tudo a ver com o seu mundo.
E explica:
"Pra começar é muuuuuuuito quente. Gentein, o que é aquuuuuuilo? E o nome da cidade começa com...? Vejam as duas sílabas iniciais. Mais sugestivo, impossível.
A ave símbolo do lugar – o Tuiuiu – tem um nome meio fora de foco, mas lembra a história do Joãozinho troca-letra: - Joãozinho, você gosta de que? - De tu, fessora. - Obrigada, Joãozinho, de que mais? - De tota-tola e tu, fessora!
O resto do pantanal é uma festa. Os rios só dão pacu e tambacu. Nas matas só se ouve o jacu, a curicaca e o mucurututu.
Está cheia, também, de sucuri e surucucu.
E pra finalizar o povo adoooora comer cuscuz."
Pois é, e o doce e meigo pescador não sabia que Cuiabá tem uma cachaça curtida em... raiz de pica de anta! (arre égua!)
Para quem quiser conferir:


Cachaça de raiz de pica de anta, Bebidinhas