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02 janeiro, 2019

O soldado sobrecarregado

Uma aula interessante a que assisti na Escola de Engenharia foi ministrada pelo Prof. Homero Lenz Cesar, o pai de Claudio Lenz Cesar (v. entrevista), um dos físicos brasileiros mais importantes da atualidade. Em pouquíssimas palavras, Prof. Homero detalhou o real significado do que seja a Ciência, ao assegurar com todas letras que "O homem é o único animal que tem condições de complicar as coisas". Tenho certeza de que o saudoso Professor estava com a razão. Segue um texto, no mínimo hilário, relacionado com a sobrecarga que os recrutas das temidas Forças Armadas Americanas têm que arrastar no lombo, nas marchas e nos campos de batalha. Boa parte desta parafernália é composta por "gadgets", de utilidade discutível, cujo uso a industria armamentista penhoradamente agradece. ~ Jaime Nogueira

Uma história pesada
A infantaria sobrecarregada não é um problema novo.
Em 107 a.C., o general romano Gaius Marius decidiu que a cauda de logística estava diminuindo suas legiões, então ele ordenou que os soldados carregassem seus próprios equipamentos . A carga incluía até quinze dias de rações, uma serra, uma cesta de vime, uma pá, um odre, uma foice e uma picareta, além de armas, armaduras e um escudo. Esses legionários marchariam 20 milhas por dia com 80 libras. de engrenagem, ganhando o apelido de "Mulas Marius".
Avance um milênio ou mais para a era do cavaleiro medieval. Seu traje completo de armadura de campo pesava cerca de 60 libras, mas permitia movimento suficiente para o usuário montar um cavalo sem ajuda. O cavaleiro francês Jean de Maingre, por exemplo, poderia subir a parte de baixo de uma escada usando apenas as mãos enquanto estava de armadura completa.
Armaduras pesadas desapareceram com a chegada da idade das armas de fogo. Mas logo o peso pesado da munição virou um flagelo para os soldados. Na Guerra Civil Americana , um soldado típico da União poderia levar um total de 60 libras de equipamentos, incluindo um mosquete de dez libras. Na Segunda Guerra Mundial, um soldado americano poderia estar carregando 75 libras , razão pela qual muitos soldados feridos se afogaram durante o desembarque do Dia D, em 1944.
As Forças Armadas sempre souberam que isso é um problema. Desde 1945, os militares realizaram pelo menos cinco grandes pesquisas sobre a carga do soldado. Todos concordaram que os soldados estavam sobrecarregados e procuraram maneiras de diminuir o peso. E todos eles falharam, porque as cargas não só aumentaram para o soldado moderno como mais do que duplicaram.
Em 2016, o Marine Corps Times relatou um novo padrão de força e resistência. Um oficial de infantaria do Corpo de Fuzileiros Navais deveria ser fisicamente capaz de carregar 152 libras por nove milhas. Essa carga pode parecer extrema, mas até mesmo documentos oficiais descrevem carregar 100 libras como padrão. No debate que se seguiu, sobre se isso era realista, um soldado de infantaria da Marinha descreveu que chegava a carregar mais de 200 libras durante as missões no Afeganistão.
A tecnologia deveria ser a solução. Em vez disso, fez crescer o problema.

Siga lendo: The Overloaded Soldier: Why U.S. Infantry Now Carry More Weight Than Ever, Popular Mechanics

03 setembro, 2017

Um vazio na alma militar

por ​Nelson Lott de Moraes Costa
Caro Paulo Henrique Amorim​,​
O Marechal Lott é personagem de ficção, não existiu na vida real assim como Trotsky não existiu na URSS de Stalin.
O Marechal Lott foi primeiro aluno em tudo que cursou: Colégio Militar, Escola Militar, ESAO, ESG, curso de Estado Maior na França, etc, etc. Foi também quem regulamentou a profissão dos militares subalternos (cabos, sargentos e subtenentes), organizou as tropas da FEB, etc. Ministro da Guerra por seis anos e da Aeronáutica por breve período, posteriormente. Isso no âmbito exclusivamente militar.
Apesar desse histórico militar brilhante, não vamos encontrar referências a ele no meio castrense. Não é nome de quartel, de unidade, de pavilhão, nem patrono de turma da AMAN ou mesmo da ESA (Escola de Sargentos das Armas) implementada por ele.
Os militares dos tempos pré-ditadura tinham uma formação de brasilidade. Mesmo os gorilas golpistas tinham uma visão de Brasil, de nacionalidade, além de valores éticos e morais no trato da coisa pública.
O Marechal Lott brigava com os netos que deixávamos as luzes acesas na residência oficial e a "viúva" era quem pagava a conta. Todas as suas despesas domésticas - na residência oficial - eram bancadas pelo soldo dele. Nunca um de nós andou em veículo oficial e um genro dele, oficial do Exército, por sua ordem teve uma passagem aérea num vôo civil pago pelo Exército trocada por uma carona num velho C47 da FAB que levou 9 dias para cobrir o trajeto que o avião de carreira fazia em 12 horas. Economizou para a "viúva" sacrificando seu familiar. O meu pai, major, passou mal no quartel e morreu ao chegar em casa. Pelas normas, teria direito a duas promoções, pois morrera em serviço.
Além disso tinha já sido assinada a sua promoção a tenente coronel. O Marechal Lott informou à sua filha, minha mãe, que promoção assinada e não publicada em Diário Oficial não tinha valor e que o genro morrera "no" serviço e não "em" serviço. Assim, a viúva e seus quatro filhos receberiam pensão do posto superior imediato, tenente coronel, e não três postos acima como mereceria de acordo com a lei, a tradição e a benevolência.
A formação militar deixou muito a desejar, soldo e vantagens tornaram-se mais importantes do que o serviço, do que a nação.
Bolsonaro criou-se defendendo salários das forças armadas e não os tradicionais valores militares.
Vende-se hoje a Amazônia por trinta dinheiros, assim como 57 outros órgãos ou empresas nacionais na bacia das almas. No ritmo em que vamos, esperemos que não chegue o dia do Panteão de Caxias ser alugado para uma franquia do McDonald's para pagarmos dívidas ou apoios políticos.
Portanto, PHA, o Marechal Lott, ao contrário de Itabirito, não é um retrato na parede de um quartel, é um vazio na alma militar.
Grande abraço.
Nelson Lott

2016 tem pouco de 1964, mas muito de 1955. (Em 1955) o golpe não deu certo porque havia Lott, que deu um conta-ataque preventivo, colocou os tanques nas ruas e prendeu os golpistas. PHA

Título original: A quem interessa esquecer o Mal Lott? , publicado no site Conversa Afiada (29/08/2017)

Artigo relacionado: Como JK conseguiu se proteger da cruzada moralista, por André Araújo