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11 agosto, 2025

Fisiognomia Comparativa

Ou: Semelhanças entre Homens e Animais, por James W. Redfield (1852)

"Typhoon" (1902), de Joseph Conrad, abre com uma descrição simultânea do rosto e do caráter do Capitão MacWhirr: ele "tinha uma fisionomia que, na ordem das aparências materiais, era a contrapartida exata de sua mente: não apresentava características marcantes de firmeza ou estupidez; não tinha características pronunciadas; era simplesmente comum, irresponsivo e imperturbável". Uma ideia particularmente popular no século XIX, a fisiognomia (*) — a crença de que se poderia igualar características faciais a caráter moral e intelectual — pertencia a um conjunto de ciências todas baseadas em uma noção quase pré-moderna: que as qualidades e propriedades de pessoas e objetos podem ser adivinhadas por meio da aparência. Frenologia, craniometria, quiromancia (leitura de mãos), e grafologia compartilhavam um princípio antropométrico central: “que o estado invisível da alma de uma pessoa se manifesta por meio de seu corpo físico na forma de assinaturas legíveis”.

Um clássico do gênero, "Comparative Phygsionomy" (Fisiognomia Comparativa), do médico norte-americano James W. Redfield, levou adiante o trabalho do pastor suíço Johann Kaspar Lavater (1741–1801), frequentemente creditado como o pai da fisiognomia, que, seguindo Aristóteles, acreditava que humanos asininos literalmente se assemelhavam a asnos — "Orelhas longas são um sinal de que seu possuidor é extremamente afetado, tanto na linguagem quanto na ação" — e que a diferença entre sapos e deuses era uma questão de semblante. Embora, de acordo com Brian Bantum , o trabalho de Lavater "nunca tenha invocado explicitamente a nomenclatura racial", ele, no entanto, articulou "uma visão teológica de um corpo cristão ideal, um santo, como um corpo masculino branco". O que era implícito para Lavater se torna explícito na Fisiognomia Comparativa de Redfield , um livro informado pela intersecção da teoria evolucionista, eugenia e o surgimento da "antropologia racial" no século XIX, que buscava hierarquizar os seres humanos por meio da aparência física.

Como o título indica, o livro se preocupa em comparar animais e rostos humanos, agrupados por nação e grupos étnicos. Uma rápida olhada na página do conteúdo dá uma ideia do esforço. Os pares específicos contam sua própria história das inclinações racistas fervilhando abaixo da superfície, mas também consignam o projeto a um reino absurdo de construtivismo cultural desde o início. A lógica de Redfield para comparar turcos a perus se baseia em uma coincidência homônima em inglês, ausente da etimologia de "turkey". No entanto, o fisiognomista afirma que o "peru é muito parecido com o turco (que parece estar totalmente inconsciente da posição em que o colocamos)". O "nós" aqui é revelador. Os alemães, os "ianques" e os britânicos conquistam um trio de animais associados à força: leões, ursos e touros, respectivamente. Outros são "colocados" por Redfield em comparações infelizes com aqueles de qualidades menores (ratos, peixes e camelos). Lendo "Comparative Physiognomy", rapidamente se torna aparente por que essa "ciência" e seus primos antropométricos encontraram campeões europeus e americanos durante a Nova Era Imperial. É mais fácil justificar a extração econômica e missões civilizadoras quando você está lidando com bestas.  (https://publicdomainreview.org/collection/comparative-physiognomy-or-resemblances-between-men-and-animals-1852/)

(*) N. do E. Evitei traduzir para "fisionomia", que significa:
1. conjunto de traços do rosto humano; feição, semblante.
2. expressão singular desses traços; ar, aparência.

11 junho, 2010

Ciência x pseudociência

Confunde-se o ceticismo com a atitude de não acreditar em nada. É falso. Todos nós temos o direito e, às vezes, a necessidade de acreditar em algo. Mas é no ceticismo onde está a ferramenta mais eficaz para separar a pseudociência (o joio) da ciência (do trigo).

1. Enquanto o pensamento pseudocientífico estabelece esquemas estáticos, o pensamento científico encontra-se aberto a conflitos cognitivos. Isto quer dizer que a ciência, mediante conflitos conceituais e revoluções científicas, evolui sempre.

2. Nesta linha de conduta, a pseudociência não aceita fatos que sejam contrários a seus princípios. Já a ciência busca essas anomalias, as quais inclusive podem trazer revoluções científicas que ampliem o seu campo de estudo.

3. A pseudociência se cerca de mistérios sem explicá-los com razoabilidade. A ciência, que não os busca, analisa-os. Observar que um mistério, ao ter a causa explicada, passa ao plano da ciência e deixa de interessar à pseudociência.

4. A pseudociência não se atualiza ao longo dos tempos, é anacrônica. E aqui novamente aparece a ideia do progresso como sendo um dos motores da ciência.

5. A pseudociência recorre a explicações esotéricas ligadas a forças estranhas e indetectáveis. A ciência busca as explicações de acordo com os resultados de suas experiências.

6. As hipóteses pseudocientíficas não podem falhar, o que pode acontecer comumente no argumento científico.

7. Os estudos pseudocientíficos oferecem apenas relatos isolados. A ciência busca a reprodutibilidade dos fenômenos e, até que ela aconteça, não pode emitir hipóteses plausíveis e, muito menos, teorias e leis.

8. A pseudociência permanece no século XVII: pretende dar como certo um argumento porque uma pessoa "importante" o emitiu. A ciência trabalha através da contínua contestação e o argumento de uma autoridade não é um critério científico.

de Eugenio Manuel. In: Ciencia en el XXI