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29 dezembro, 2024

Beethoven preso

Num dia de outono de 1822, o compositor de 52 anos vestiu seu casaco roído pelas traças e partiu para o que pretendia ser uma curta caminhada matinal pela cidade, com uma tempestade de ideias na mente. Caminhar sempre foi seu principal laboratório para a solução criativa de problemas, então o passeio matinal se transformou em uma longa caminhada semiconsciente ao longo do Danúbio. Numa manifestação clássica do esquecimento de si mesmo que marca o intenso estado criativo agora conhecido como "fluxo", Beethoven perdeu a noção do tempo, da distância e das exigências do seu próprio corpo.

Beethoven, de Julius Schmid

Ele caminhou e caminhou, sem chapéu e absorto, sem perceber o quão faminto e cansado estava ficando, até que a tarde o encontrou vagando desgrenhado e desorientado por uma bacia hidrográfica no interior do país. Lá, ele foi preso pela polícia local por "se comportar de maneira suspeita", levado para a prisão como "um vagabundo" sem documentos de identidade, e ridicularizado por afirmar ser o grande Beethoven – até então um ícone nacional, com um corpus de concertos e sonatas célebres em seu nome e oito sinfonias inteiras.

O vagabundo enfureceu-se e enfureceu-se, até que finalmente, perto da meia-noite, a polícia enviou um agente nervoso para acordar um diretor musical local, a quem Beethoven exigiu que o pudesse identificar. Reconhecimento instantâneo. Raiva justa. Desculpas. Lançamento imediato. Mais raiva. Mais desculpas. Beethoven passou a noite na casa do seu libertador. De manhã, o prefeito da cidade, que se desculpou, foi buscá-lo e levou-o de volta a Viena na carruagem do prefeito.

Extraído de: A notável história por trás de "Ode à Alegria", por Maria Popova

ODE À ALEGRIA Excerto da Nona Sinfonia, op. 129, de L. van Beethoven. Letra original de F. Schiller, adaptação para português de Gabriel Machado. INTERPRETAÇÃO VOCAL Coro de 280 vozes da Oficina Nacional de Canto Coral, Alma Coralis, e Coro de Câmara Kintsugi. PIANISTA Gabriel Machado

14 março, 2022

Uma ode ao número pi(π)

O admirável número pi:
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, arf, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.
- Wislawa Szymborska, Pi (tradução: Carlos Machado)