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06 dezembro, 2017

Bondes, reclames e Copacabana

A Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico foi uma empresa de transportes públicos no Rio de Janeiro.
Os seus bondes, que inicialmente eram pintados conforme o bairro a que serviam, foram em 1899 uniformemente pintados de verde, com as iniciais CFCJB nas longarinas do teto. Em 1900, partiam composições, de cinco em cinco minutos, do largo da Carioca em direção a Copacabana, Gávea, Laranjeiras, passando pelo Catete, Flamengo, rua Bento Lisboa, praça Duque de Caxias, praia de Botafogo, rua Sergipe (atual rua Real Grandeza), largo dos Leões e Jardim Botânico, conforme informação do Almanaque Histórico da Cidade do Rio de Janeiro.
No início do século XX, a Companhia do Jardim Botânico foi uma das grandes divulgadoras do bairro de Copacabana, como se depreende destes reclames colocados em suas estações:
"Quereis gozar de boa saúde? Ide a Copacabana. Bondes em quantidade."
"Passeio agradável e refrigerante: Copacabana. Bondes até às 2 horas da manhã."
https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Ferro-Carril_do_Jardim_Bot%C3%A2nico
E desta propaganda em versos divulgada em seus cupões:
"Quem for doente e quiser ter saúde
Jogue fora o xarope e a tisana
Ponha a mobília na andorinha e mude
--- Para Copacabana."
Dicionário Século XX - Século XXI
reclame, anúncio comercial.
tisana, cozimento de cereais, não raro adoçado com açúcar, com propriedades medicinais.
andorinha, veículo apropriado para transporte de mobília

30 novembro, 2017

Gatuno

Publicação a pedido
(200 réis por linha)
Faço público que o Sr. Simão Alves Quarenta é um refinadíssimo patife que, quando o pai lhe morreu (por ter um filho tão ordinário, com certeza), roubou a herança das irmãs que dissipou em orgias; depois de gasta essa fortuna, suas irmãs obrigadas a esmolar para viver, este salafrário começou a passar contos de vigário nos incautos, fazendo transações em nome de firmas fantásticas, captou a confiança de uma viúva rica que lhe ouviu as lábias de velhaco e reduziu esta pobre também à mais tormentosa miséria; depois disso, empregou-se como caixa do Banco dos Sineiros e Repicadores, quebrando este importante estabelecimento de crédito, reduziu à miséria muitas famílias, e corrida essa lebre começou a negociar em gado nas feiras de Minas, presumindo-se que passando notas falsas, este sujeito está hoje de novo entre nós e estabeleceu um armazém na rua do Quebra Coco, cuidado com ele, vizinhança!!!

10 novembro, 2017

Gaveta de cartas

Carlos Pinto (Pernambuco). O seu conto não pode ser publicado por fugir aos moldes de nossa revista; é excessivamente picaresco.
T. Rocha (Porto Alegre). Aí vai uma amostra de seus versos:
"Uma flor quando no pé
Tem um valor duplicado
Colhida perde o seu garbo
O seu olor delicado
Portanto, filha, do galho
Não queiras tirar a flor
Que perdes com seu perfume
Doces carinhos de amor."
Estude, Sr. Rocha, leia os versos do Sr. Victruvio e outros notáveis poetas, que um dia poderá com eles ombrear.
Três Pontinhos (Niterói). Tenha paciência, mas os seus artigos foram para as cestas dos papéis sujos, por impublicáveis.
Carlos Taveira (Fortaleza). Para o satisfazer aí vão alguns versos seus:
"Somos dois anjos na vida
Dois arcanjos a voar
Um à procura da sorte
Outro das garras da morte
Sempre a fugir, a escapar..."
Está satisfeito? Pois lamba as unhas
Mauro C. (São Paulo). Nós não costumamos pegar no bico da chaleira. Faça o senhor seu elogio pessoalmente e não queira servir-se da gente para semelhantes coisas.
Sr. Magalhães (Bahia). Já passou o tempo da escola condoreira; seu
"O monge que habita os Andes
Com as barbas da cor do Céu"
é inteiramente incompreensível para a moderna geração literária.
Oscar Costa (Rio). É melhor o senhor não publicar livro algum.
J. C. de Moraes Rego (?). Seu madrigal foi para o lixo.
Anfrysio Correia (Campinas). Poucos versos costumamos publicar; nunca publicaremos, porém, como estes:
"A vida é uma hirsutação etérea
Que n'alvorada a pálida criança
Embala em sonhos a rudeza aérea
E mal aponta a tímida esperança
Desata em flocos d'amplidão funérea
A loira, fosca, esparramada trança!"
Sr. Anfrysio, um conselho: deixe a poesia e plante batatas.
Glauco (Rio). O seu soneto está muito bom. Mas, para que seja publicado, é necessário que o senhor compareça à nossa redação para deixar o nome, ainda que o soneto seja publicado com pseudônimo.
Revista Careta, 3 de abril de 1909 - edição 44
(transcritas com atualização ortográfica)

16 junho, 2017

As escolas literárias no Rio antigo

(Enquète à moderna - Previna-se aos leitores que não será publicada em volume - É só para o gasto - Deu trabalho para escrever - Se não prestar é por minha culpa - Cada um dá o que tem.)
O Rio tem muitas escolas literárias, mas nem todas são conhecidas do público. Ora, e isto é o diabo. O público brasileiro é doido pelas letras, pelas artes: interessa-se de um modo exorbitante por tudo que cheira a livro, excetuando-se, já se vê, os livros do "bê-a-bá". Isso é outra massada: o publico adora a literatura, protege-a, vive para ela, porém não sabe decifrar as letras porque odeia o "bê-a-bá".
Daí começa a dificuldade da minha reportagem, porque ela é feita para a massa. E sabem quem é a massa? É o conjunto absoluto, compacto, integral e unânime de todos os bípedes implumes chamados vulgarmente cidadãos e cientificamente Homo sapiens.
Para uma enquète desta ordem a primeira coisa a fazer é definir o que seja uma escola literária. A melhor definição é a seguinte: escola literária é a reunião de uma ou mais pessoas escrevendo segundo as mesmas regras.
Assim, por exemplo, o nefelibatismo. Esta escola tem, como todas, um chefe, os adeptos, os simpáticos e os apreciadores.
Tem três regras principais:
1ª - Escrever palavras.
2ª - Escrever as ditas palavras com letra maiúscula.
3ª - Não se preocupar com o sentido.
O fundador do nefelibatismo foi São João Evangelista escrevendo o seu Apocalipse. Depois dele surgiram diversos nefelibatas, entre os quais Coelho Lisboa, Floriano de Lemos e Osorio Estrada.
Todas as escolas literárias têm entre si uma relação, ou melhor, um laço de união chamado rivalidade. Por meio deste laço de união é que as diversas escolas se entendem por seus diversos agentes que agem pelos jornais, pelos botequins e, às vezes, nos prólogos das obras que costumam aparecer. Pelos jornais e nos prólogos estes agentes trabalham pela descompostura e nos botequins por diversos meios, entre os quais a mão na cara. [...]

X. Malmequer
Revista Careta, 13 de fevereiro de 1909 - edição 37
(texto transcrito com atualização ortográfica)
http://memoria.bn.br

14 novembro, 2016

Respostas preventivas

Em um restaurante do Catete há um aquário com um peixinho vermelho. Os fregueses ociosos deram para se agrupar no local, crivando o proprietário de perguntas.
Cansado de responder a perguntas idiotas, o proprietário tomou um expediente.
No dia seguinte, quando os fregueses chegaram, viram pendente ao lado do aquário um cartaz de papelão, com os seguintes respostas:
Isto é um peixinho vermelho.
Está vivo.
É um só.
Custou dois mil réis.
Comprei-o de um freguês.
Não sei onde o freguês o arranjou.
Ele nunca morreu.
Come o que lhe dou.
O que está dentro é água.
A água é apanhada da torneira.
Não sei que idade ele tem.
Ele está aí desde que o comprei.
Tinha outro que morreu.
O morto foi atirado no lixo.
Não sei se ele dorme.
A água eu mudo quando quero.
Não sei quanto tempo ele viverá.
A água que ele bebe não se perde.
Não sei se ele crescerá.
Posso pegá-lo com a mão, mas não gosto.
Ele não fala.
É tudo que eu sei a respeito dele.
Não é para vender.
Revista Careta, 9 de janeiro de 1909 - edição 32
(transcrito com algumas modificações)
http://memoria.bn.br