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20 outubro, 2023

A carta de nobreza de Apporelly

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé. (carece de agências de checagem)

Durante a Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas partiu de trem rumo à capital federal, então o Rio de Janeiro, propagou-se pela imprensa que haveria uma batalha sangrenta em Itararé. Esta batalha ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal que, sob o comando de Getúlio Vargas, vinham do Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A cidade de Itararé fica na divisa de São Paulo com o Paraná, mas antes que houvesse a batalha "mais sangrenta da América do Sul", fizeram acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio e não aconteceu nenhum conflito. O Barão de Itararé comentaria este fato mais tarde da seguinte maneira:
"Fizeram acordos. O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve."
Na verdade, em outubro de 1930, Apparício se autodeclarou Duque nas páginas de seu jornal:
"O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é o duque dançarino, que dança muito bem mas não briga e o Duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música."
Mas, como ele próprio anunciaria semanas depois, "como prova de modéstia, passei a Barão."

27 julho, 2021

O jogo de xadrez, segundo Barão de Itararé

Encarcerado no mesmo lote de Graciliano Ramos, o Barão iluminava a prisão inventando graças o tempo todo.
Uma dessas - sua proposta de reformar o jogo de xadrez - unia a fome do Brasil à imaginação do escritor britânico Lewis Carroll: as peças do jogo deveriam ser feitas de material comestível, para serem literalmente consumidas pelos jogadores em uma incessante partida, pois comido o rei, proclamada a República, começaria tudo de novo.

27 dezembro, 2009

O Duque que virou Barão

Teoricamente, os títulos de nobreza são conquistados nos campos de batalha, mas no Brasil costumavam ser comprados. Havia nobres que nunca combateram. Assim, Apparício Torelly inventou que havia se destacado na Batalha de Itararé, uma batalha entre gaúchos e paulistas que não houve em 1931. E, para fazer as fotos que comprovavam sua participação na luta, vestiu-se de um surrado uniforme da Guerra do Paraguai. A seguir, o nosso herói se autonomeou Duque de Itararé, fazendo publicar em seu jornal, A Manha, que esse título fazia justiça "a uma personalidade de excepcional valor que se distinguiu no campo de batalha".
Algum tempo depois, "como prova de modéstia", Apparício se auto-rebaixou para Barão de Itararé. Não dispensando, porém, "as periódicas injeções de azul de metileno que o faziam ficar com o sangue azul".
O Brasão do Barão
Apparício criou também um escudo heráldico para a Casa de Itararé. Eis a descrição deste símbolo segundo o próprio criador:
"Observe o leitor o detalhe do brasão, em filigranas e ornamentações clássicas. No meio da moldura, dominando o conjunto, em posição de quem perdeu a guerra ou procura alfinetes no chão, vê-se a efígie do ilustre fidalgo, vigiando a coleção de armas e iguarias que sustentam o escudo. À esquerda, no plano austral, salienta-se uma vaca sagrada, em atitude arbitrária, como quem resiste e protesta contra a possibilidade de ser loteada para o açougue e transformada em bifes de ouro. No lado direito da perna do sinistro Barão, vê-se, guardado por um punhal tibetano, um saco cheio do produto de honesta economia, advinda do troco de caixas de fósforos e passagens de bonde que deixou de pagar, fingindo distraído, quando passava o condutor. Descendo pela esquerda, aparece uma mão solta, que não tem nenhuma explicação e, a seguir, um cachorro vira-lata, com evidente intenção hidráulica de franco desacato aos símbolos da nobreza. No centro-esquerda, distingue-se a monografia "BI", usado nas cuecas e na roupa de cama do fidalgo, quando as tem. Logo abaixo, destaca-se um jumento franquista e um peixe grande, que não se sabe como conseguiram penetrar na moldura. À direita, distinguem-se vários objetos de ostensiva significação oculta: um cidadão de cartola, em pleno processo de desintegração atômica; um frango e uma garrafa, de destinos suspeitos, e, finalmente, um desconhecido, perto de um pescado, que tanto pode ser uma baleia engolindo o profeta Jonas, como o deputado Lameira Bittencourt, vomitando um pirarucu depois do almoço. A parte mais importante do escudo, porém, é o quadrante esotérico, com seus quatro extensos campos. No primeiro, parece um navio pirata que, se não for uma homenagem à terra de Churchill, só pode ser explicado à luz da psicanálise, como uma traição do subconsciente. No segundo, há um pé de meia, coroado de estrelas, formando falsos cruzeiros, que se vão escondendo no cofre de calcanhar reforçado. No terceiro, ostenta-se uma galinha morta, com uma bandeirola de livre trânsito dos comandos sanitários. No quarto campo, um alfanje muçulmano monta guarda a todo escudo. Por fim, no centro, encimada por uma boa estrela, exibe-se uma cesta de Natal, com frutas do país e salsichas de Viena, para recordar aos povos que nem só de pão vive o homem, como dizem as Sagradas Escrituras e é da escrita."