04 dezembro, 2014

Serenata sintética

Um poema intraduzível
Em seu livro de 1983, "En torno a la Taducción", o filólogo e tradutor espanhol Valentín García Yebra cita como intraduzível este poema, "Serenata sintética", do brasileiro Cassiano Ricardo:

Rua
Torta

Lua
Morta

Tua
Porta

Em termos gerais, é uma imagem de um encontro à noite, mas a sua importância é tão incorporada em sua linguagem que García Yebra se viu incapaz de transmiti-la em outra língua.
"Nesse curto poema a forma fonêmica é tudo", escreve Basil Hatim e Ian Mason em "Discurse and the Translator". "As próprias palavras são evocativas: uma pequena cidade com ruas sinuosas (rua torta), uma lua pálida (lua morta) e a sugestão de um caso amoroso (tua porta). Mas seu impacto é conseguido quase que exclusivamente através das rimas próximas e do ritmo; o significado é sobre-erguido do nível do banal à força da exploração de recursos que são indissociáveis ​​da língua portuguesa como um código.
García Yebra relata que ele desistiu de traduzir o poema até mesmo para o Espanhol, uma língua que compartilha certas características fonológicas com o Português.


Escrita em 1957 por Cassiano Ricardo, “Serenata sintética” é composta por seis versos, todos formados por apenas uma silaba poética.
De forma brilhante, o poeta constrói a figura de um eu-lírico que é levado por um caminho incerto e um céu sem o brilho do luar até a porta da amada. Comentário de Literatura em Foco.

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2 comentários:

Clara Sol disse...

Paulo meu amigo.
Olha que fiquei encantada com esta serenata sintética de Cassiano Ricardo.
A gente se deixa levar para um passado que hoje em dia é difícil de rever, raras se for a Conservatória ou se você pagar a uma destas bandas antigas.
Que na verdade o poeta disse tudo, pois a serenata é nada mais cantar para uma pessoa que não se sabe se vai apreciar o que deixa um romantismo no ar e ao mesmo tempo um mistério do enigmático..
Abraços sempre.
ClaraSol

Paulo Gurgel disse...

Uma coisa puxa outra.
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