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27 maio, 2024

O Burro Juiz, por Monteiro Lobato

Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele. Como as outras aves rissem daquela pretensão, a bulhenta matraca de penas, furiosa, disse:
- Nada de brincadeiras. Isto é uma questão muito séria, que deve ser decidida por um juiz. Canta o sabiá, canto eu, e a sentença do julgador decidirá quem é o melhor artista. Topam?
- Topamos! piaram as aves. Mas quem servirá de juiz ?
Estavam a debater este ponto, quando zurrou um burro.
- Nem de encomenda! exclamou a gralha. Está lá um juiz de primeiríssima para julgamento de música, pois nenhum animal possui maiores orelhas. Convidemo-lo.
Aceitou o burro o juizado e veio postar-se no centro da roda.
- Vamos lá, comecem! ordenou ele.
O sabiá deu um pulinho, abriu o bico e cantou. Cantou como só cantam sabiás, garganteando os trinos mais melodiosos e límpidos. Uma pura maravilha, que deixou mergulhado em êxtase o auditório em peso.
- Agora, eu! disse a gralha, dando um passo à frente.
E abrindo a bicanca matraqueou uma grita de romper os ouvidos aos próprios surdos.
Terminada a justa, o meritíssimo juiz deu a sentença:
- Dou ganho de causa à excelentíssima senhora dona Gralha, porque canta muito mais forte que mestre Sabiá.
Quem burro nasce, togado ou não, burro morre.

Link: https://www.migalhas.com.br/quentes/88683/um-nacionalista-preso-por-delito-contra-a-seguranca-nacional
A condenação de Monteiro Lobato pelo Tribunal de Segurança Nacional (1941), confirma a velha fábula. A sentença deu razão ao que cantava mais forte.

04 novembro, 2017

O bêbado e o juiz

Cidade do interior, final de semana, boteco da esquina cheio, cadeiras até no meio da calçada e nenhuma mesa vazia. Havia só uma cadeira na mesa perto do balcão, onde uns amigos conversam e xingavam entre si. De repente, entra um senhor, acerca-se do balcão e pede um maço de cigarros e um refrigerante grande para levar. Como estava perto da mesa onde ainda havia uma cadeira um dos bebuns gritou:
– Aí, ó, baitola, senta aí mesmo!
– O senhor me chamou de quê, mesmo?, replicou o senhor, muito sério e visivelmente ofendido.
– Liga, não, meu irmãozinho, o Claudicleydson quando bebe, fala assim mas não é pra ofender, não. Senta aí, vai. Toma uma com a gente.
– Olha aqui, vocês todos...
E passou a apontar o dedo em riste para o bebum que o chamou de "baitola":
– Se der mais um pio vou mandar prendê-lo!
Silêncio geral.
Quando o senhor já ia virando as costas para o balcão, o tal bebum perguntou:
– Desculpe a ignorância, pois eu nunca vi o amigo na cidade, quem é o senhor pra mandar me prender?
– Sou o novo juiz da cidade. E, desculpe-me, mas não sou seu amigo.
– Tá bem. O senhor pode até mandar me prender, mas daqui uns dias tou solto, até porque sou amigo do delegado, e...
– O delegado é meu irmão, atalhou o senhor.
- De qualquer forma, logo, logo, estou soltinho, na rua, mas quando o senhor cair em minhas mãos, nunca mais - repito: nunca mais - o senhor vai ser solto. Por ninguém!!!
Ao que o senhor, intrigado, perguntou:
– E o senhor é o quê, posso saber?
– Sou o coveiro da cidade.
Riso geral. Mas o bebum foi preso assim mesmo, sob o protesto do bar inteiro.
Fernando Gurgel Filho
As mulheres e Nelson Rodrigues
c/ a banda "Velhas Virgens"
O rico e o pobre são duas pessoas
O soldado protege os dois
O operário trabalha pelos três
O cidadão paga pelos quatro
O vagabundo come pelos cinco
O advogado rouba os seis
O juiz condena os sete
O médico mata os oito
O coveiro enterra os nove
E o diabo leva os dez
Mas a mulher, a mulher engana os onze
A mulher engana os onze de uma vez.
https://www.vagalume.com.br/velhas-virgens/as-mulheres-e-nelson-rodrigues.html

Fernando,
Nem no dia que morre o coveiro falta no cemitério.

06 maio, 2014

Uma nação governada por leis

Em 18 de fevereiro de 1986, frustrado com as fortes chuvas que impediram que alguns jurados chegassem a sua corte, Samuel King, juiz de uma corte distrital na Califórnia, disse:
"Eu ordeno que pare de chover até terça-feira. Vamos ver como isso funciona."
E o Estado da Califórnia entrou em cinco anos de seca com severo racionamento de água.
Em 1991, quando os colegas lembraram ao juiz das consequências de sua decisão, ele disse:
"Resolvo rescindir a minha ordem de 18 de fevereiro de 1986 a fim de que a chuva volte a cair na Califórnia, começando em 27 de fevereiro de 1991."
Mais tarde, naquele dia, a região recebeu quatrocentos milímetros de chuva, a mais pesada tempestade em uma década. E outras duas tempestades acrescentaram, em seguida, mais 760 milímetros de precipitação pluviométrica..
Em uma carta a um jornal local, Samuel King disse que "isso foi a prova de que somos uma nação governada por leis".

So Ordered, Futility Closet