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02 setembro, 2023

Ri melhor quem ri Millôr

Observador mordaz da realidade brasileira, criador de frases geniais, artista sofisticado, além de tradutor, escritor, dramaturgo e, acima de tudo, jornalista, como gostava de se definir, Millôr Fernandes (1923-2012) teria completado 100 anos em 16/8. Para celebrar a data, o Instituto Moreira Salles, que desde 2013 detém a guarda de sua obra gráfica, disponibilizou 4 mil desenhos originais do seu acervo. É um material impagável, produzido ao longo dos 70 anos em que ele publicou na imprensa – percurso iniciado em 1945 na revista O Cruzeiro, onde por 17 anos manteve a importante seção "O Pif-Paf", passando por veículos como Veja, Pasquim e Jornal do Brasil, entre outros.


Coordenadora de Iconografia do IMS, Julia Kovensky se refere aos desenhos originais como "o coração do acervo do Millôr no instituto": "É um conjunto que permite tanto o deleite para quem gosta da obra do Millôr, do seu humor, quanto para quem queira se aprofundar no pensamento e na produção dele, porque a partir da observação dos desenhos é possível entender as etapas, visualizar como era o seu pensamento gráfico, como ele chegava na confecção do que iria publicar".

27 agosto, 2022

Frescobol

Carioca da gema, o frescobol foi criado na Copacabana dos anos 1940, embalado pelas transformações por que passava o bairro da Zona Sul. Frequentadores da famosa praia iniciaram sua ressignificação, afastando-se do glamour noturno das boates e passando a ocupar a imensa área de lazer à beira-mar. Como muitos destes moradores tinham no tênis um hobby, a adaptação do esporte às areias seguiu um fluxo natural.
Uma das versões sobre a origem do frescobol credita sua criação ao arquiteto, morador de Copacabana e tenista nas horas vagas Caio Rubens Romero Lyra, que costumava levar raquetes e bolas de tênis para treinar na praia, entre os postos 4 e 5. Como os equipamentos sofriam os estragos causados pelo vento, areia e maresia, o tenista teve a ideia de desenhar raquetes de madeira resistentes à água salgada e bolas lisas, sem os pelos das usadas nas partidas de tênis.
Outra narrativa tem um protagonista diferente, mas os enredos se aproximam. Frequentador do trecho da praia entre o Hotel Copacabana Palace e a Rua Duvivier, Lian Pontes de Carvalho teria criado o esporte em 1945. Ele era dono de uma fábrica de pranchas, móveis para piscina e esquadrias de madeiras e começou a fabricar raquetes de frescobol para vender na Praia de Copacabana, com a ajuda dos salva-vidas. 
Há, ainda, uma terceira versão que assinala como pai e inventor da modalidade o escritor e cartunista carioca Millôr Fernandes. Ele é autor de um painel em homenagem ao frescobol na Praça Sarah Kubitschek, onde escreveu: "único esporte com espírito esportivo, sem disputa formal, vencidos ou vencedores".

MF jogando frescobol no Arpoador

O jogo, praticado com raquetes de madeira rebatendo uma pequena bola de borracha, é, por essência, dinâmico e sem pontuação. O objetivo é manter a bola em movimento o maior tempo possível entre os participantes. Em 2015, ao ser reconhecido como parte do estilo de vida do carioca e da paisagem cultural das praias da cidade, o frescobol foi declarado Patrimônio Cultural Carioca de Natureza Imaterial.
No mesmo ano, o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) também levantou dados sobre o jogo e mapeou os principais locais onde é praticado: Ilha do Governador (Praia da Bica), Praia do Flamengo, Praia de Copacabana (Santa Clara e Bolívar), Praia do Diabo (Arpoador), Barra da Tijuca (Pepê e Posto 7) e Recreio dos Bandeirantes (Posto 9).
Fontes
http://riomemorias.com.br/memoria/frescobol/
http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/leia/reportagens-artigos/reportagens/1109-frescobol-das-praias-a-patrimonio-cultural

04 março, 2021

Autodepreciação

A educação matemática do jovem físico [Albert Einstein] não era muito sólida, o que estou em uma boa posição para avaliar, pois ele a obteve de mim em Zurique, há algum tempo.
~ Hermann Minkowski

O GATO E A BARATA
A baratinha velha subiu pelo pé do copo quase cheio de vinho, que tinha sido largado a um canto da cozinha, desceu pela parte de dentro e começou a lambiscar o vinho. Dada a pequena distância, que nas baratas vai da boca ao cérebro, o álcool lhe subiu logo a este.
Bêbada, a baratinha caiu dentro do copo. Debateu-se, bebeu mais vinho, ficou mais tonta, debateu-se mais, bebeu mais, tonteou mais e já quase morria quando deparou com o carão do gato doméstico que sorria de sua aflição, no alto do copo.
– Gatinho, meu gatinho – pediu ela –, me salva, me salva. Me salva que assim que eu sair eu deixo você me engolir inteirinha, como você gosta. Me salva.
– Você deixa mesmo eu engolir você? – disse o gato.
– Me saaalva! – implorou a baratinha. – Eu prometo.
O gato virou o copo com uma patada, o líquido escorreu e com ele a baratinha que, assim que se viu no chão, saiu correndo para o buraco mais perto, onde caiu na gargalhada.
– Que é isso? – perguntou o gato. – Você não vai sair daí e cumprir sua promessa? Você disse que deixava eu comer você inteira.
– Ah, ah, ah! – ria então a barata, sem poder se conter. – E você é tão imbecil a ponto de acreditar na promessa de uma barata velha e bêbada?
Moral da História:
Às vezes a autodepreciação nos livra do pelotão.
Millôr Fernandes