por Érico e Paulo Gurgel
Filho e pai, respectivamente, reunidos na primeira psicografia inter vivos do mundo. Uma crônica em que os autores, inicialmente pensando em ganhar o primeiro prêmio (viagem à Disneylândia, com direito a acompanhante) da Associação Nacional de Jornais, contentaram-se depois com a sua publicação, em 1994, no Jornal do Leitor.
Eis uma cena do início de minha vida, que se repetia todos os dias e da qual estou hoje a me lembrar: meu pai, sentado no sofá principal da sala, a ler com grande interesse o jornal. Perto dele, o guri que lhes fala, entretido com algum brinquedo no chão, embora, de quando em quando, desviasse a atenção para ver o velho. Sem que este, absorto em sua leitura, pudesse ao menos suspeitar de estar sendo o alvo de minha intermitente admiração. Naqueles fugidios instantes em que eu relaxava na atenção aos brinquedos, obviamente.
Sempre que possível eu evitava interrompê-lo em sua santa leitura. Ao contrário do que fazia minha mãe, a matraquear um assunto atrás do outro, sem ao menos se tocar para a inconveniência da hora. E bem feito porque ele sempre a desouvia!
Ainda pouco me entendia por gente, mas recordo também que aquilo me perturbava. Meu pai dedicar parte de seu tempo a um punhado de folhas impressas, ainda por cima capazes de manchar o sofá novo, como se queixava minha mãe. E, mais: ao fazer aquilo ele se comportava, para os meus tenros olhos, feito um estranho. Um ser sob alguma ação hipnótica porque, naquelas horas, podia o teto da casa vir abaixo. Que o velho, certamente, não ia perder tempo levantando a vista do jornal. Nem para apreciar o novo teto solar com que a casa acabara de ser contemplada.
Intrigava-me saber que força misteriosa possuía o jornal. A ponto de um ser humano, muita vez de forte personalidade, entregar-se a ele como se fora um escravo. Com o tempo, porém, identifiquei existir no ser humano uma especial fragilidade, que é a carência orgânica de informação. Exatamente o que o jornal tem de sobra. E que, para que aconteça a consentida dominação jornal-leitor, não hesita em nos passar diariamente. O seu produto informação, sob as mais diversas apresentações: editorial, reportagens, colunismo social, charges, publicidade etc.
Uma vez sonhei com papai sendo levado, contra a vontade, a uma redação de jornal. E o desfecho dessa experiência onírica, se alguém quer saber, foi a redação ficar só escombros. Porque papai, qual um bíblico Sansão, no fim derrubou suas colunas.
No entanto, nem tudo acontece como a gente sonha. E, sem haver sofrido arranhões nesse meu sonhar, papai continuou... vida boa não quer pressa. A ler o seu jornalzinho no sofá (por vezes, à mesa da sala de jantar), apenas lhe faltando um cachimbo na boca para compor a cena clássica. E, quando me formei em "doutor do ABC", papai me deu a ler um suplemento infantil do jornal. Que eu li com grande satisfação, bem na frente de um enciumado aparelho de televisão.
Pronto, naquele momento estava inaugurado o meu novo hábito!
Termine com esta santa leitura no Preblog.