Os cinéfilos dirão que os faroestes podem ser divididos em tudo o que veio antes de "Os Sete Samurais", de Akira Kurosawa (1954), e tudo o que veio depois. "Os Sete Samurais" nem sequer era um faroeste; a história se passava no Japão feudal, mas a autenticidade, a cinematografia e as sequências de ação influenciaram Hollywood a elevar o nível do gênero. Essa qualidade teve um preço: o filme levou um ano para ser rodado e o orçamento acabou sendo dez vezes maior do que o planejado inicialmente.
A trama, na qual uma vila contrata um grupo heterogêneo de mercenários, cada um com habilidades específicas, para combater os vilões, será familiar para você, já que muitos outros filmes utilizaram elementos dela, ou até mesmo a sua totalidade. A simplicidade da história deixa bastante espaço para o desenvolvimento da personalidade de cada personagem e para cenas de ação meticulosamente coreografadas. "Os Sete Samurais" foi um grande sucesso e desde então se tornou um clássico, frequentemente considerado um dos melhores filmes de todos os tempos.Com seus 207 minutos de duração, cenas extensas de esgrima e sequências de ação grandiosas, foi tão inovador quanto épico, recebendo elogios da crítica, apresentando o cinema japonês a uma geração e mudando a cultura popular para sempre. Sua história, personagens, filmagem com múltiplas câmeras e coreografia de ação reorientaram o cinema americano por gerações. Mesmo quem não viu o filme original provavelmente já viu alguma versão, seja em um remake direto, como "Os Sete Magníficos" (1960), ou em inúmeras homenagens, da comédia "Três Amigos!", com Steve Martin, à "Vida de Inseto", da Pixar. Hoje, 71 anos após seu lançamento, "Os Sete Samurais" ainda ressoa.
O enredo do filme certamente lhe será familiar: no interior do Japão do século XVI, um grupo de aldeões descobre que um bando de bandidos está se preparando para atacar, justamente quando a colheita de cevada da aldeia está para acontecer. Com pouca experiência militar e praticamente nenhuma arma à disposição, esses agricultores recrutam um grupo de guerreiros para defendê-los. Vemos os aldeões recrutando samurais sucessivamente, cada um com um tipo distinto. Há o veterano sábio Kambei (Takashi Shimura); o severo mestre espadachim Kyuzo (Seiji Miyaguchi); e o espirituoso e beberrão Kikuchiyo (Toshiro Mifune) — meio Puck, meio Falstaff, e na verdade nem um samurai de verdade. Uma vez reunido, o grupo heterogêneo treina os aldeões nos fundamentos da guerra. Então chegam os bandidos, e os samurais lideram os corajosos agricultores em uma longa e emocionante defesa de sua aldeia e de seus abundantes estoques de cevada.
A Conexão Kurosawa
Bacurau (dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles), que conta a história de uma pequena cidade fictícia que desaparece misteriosamente dos mapas e se torna alvo de um grupo de mercenários estrangeiros, inspira-se também em Os Sete Samurais. Ainda que inverta a estrutura narrativa da obra-prima de Akira Kurosawa, em que os aldeões vulneráveis buscam ajuda externa de guerreiros profissionais.
Já em Bacurau, no sertão brasileiro, ameaçada por invasores estrangeiros e nacionais, a comunidade conta com a própria força, a resiliência e as habilidades de seus moradores para se defender. (Paulo Gurgel)
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