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21 agosto, 2009

Que é, afinal, um "clec"?

Deixemos que Eno Wanke, o grande divulgador do gênero, nos "explique" o significado.
"Clec é um substantivo masculino singular. Bastante singular, até. Embora sendo um germanismo (vem do alemão Kleck) não adianta ir procurar-lhe o significado na língua original.
Os clecs não foram inventados. Como Adão já encontrou os animais no Paraíso, o autor já os encontrou perambulando por aí, sem nome. E, ainda como Adão nomeou seus irmãos irracionais, assim o autor resolveu batizá-los de clecs.
Os clecs são frases surrealistas, brincam de ser trocadilhos, são também afirmações perplexas, negativas enfaticamente positivas, minicontos, minicrônicas, que mais? Não se sabe. São tudo e não são nada. São mil, são uma coisa só. Procedem do futuro, do passado, do presente instável.
É preciso prescrutar-lhe o mistério. Revelam o quê? A sabedoria ou a ignorância do autor? São conscientes ou subconscientes? Ou estão apenas cientes de existirem.
Ah, perguntas! Por que insistir? Os clecs não respondem perguntas nem fazem perguntas. Eles apenas são. São o quê? Pois clecs, oras!"

Leite Derramado

Aqui não se trata de uma referência ao último romance do Chico Buarque. É o título de uma recente postagem do blog Frases Ilustradas, em que uma frase de Eno Teodoro Wanke é transcrita sob uma belíssima ilustração de Ceó Pontual (como todas as que ele desenha para o seu blog).
A frase citada é a seguinte:
“Mesmo depois do leite derramado é importante pensar que a vida continua e a vaca não morreu.”
Eno Teodoro Wanke (Ponta Grossa, PR, 28 de junho de 1929 – Rio de Janeiro, RJ, 28 de maio de 2001), que foi um engenheiro da Petrobrás e poeta, teve uma forte presença no cenário literário brasileiro a partir de 1960. Escrevia principalmente minicontos, trovas e clecs, muitos clecs (como ele chamava os seus pensamentos humorísticos). A frase que foi citada por Ceó é um destes. Eis outros exemplos de seus clecs:

"Quando um adjetivo mente, ele, por castigo, vira advérbio. Folha que se desprende da árvore não volta nunca mais. Melhor perder o trem do que perder a linha. O sol nasce para todos, mas a maioria prefere dormir um pouco mais."


Ainda guardo todos os livros autografados que dele recebi pelos Correios. São onze livros de clecs e minicontos, dois de trovas ("A Trova Literária", um clássico sobre o assunto, e "Antologia da Trova Escabrosa") e ainda um livreto, intitulado "A Ortografia Que Nos Atormenta", no qual Eno Wanke faz uma defesa da ortografia fonética para a nossa língua.