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30 dezembro, 2011

A rua das rimas

Guilherme de Almeida (*)

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rala de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer, uma mulher que bem me quer.
É uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
mas correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade:
Rua da Felicidade.

(*) Guilherme de Andrade de Almeida, advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Eleito para a Cadeira nº. 15 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Amadeu Amaral, em 6 de março de 1930, foi recebido, em 21 de junho de 1930, pelo acadêmico Olegário Mariano.

Comentários de Marco Antônio Nogueira:
1. O autor resumiu o poema em uma busca incessante pelo seu próprio contentamento. Acaba que a rua dos seus sonhos é construída por ele mesmo. À medida que ele corre atrás da felicidade, a rua se completa. Um melhoramento constante que é fruto do seu próprio anseio. Algo infinito, que depende exclusivamente dele.
2. Comenta-se que GUILHERME DE ALMEIDA fez esses versos para replicar seus adversários, quando era candidato a presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito do Largo são Francisco, que o acusaram de ser um poeta sem rimas. E, por isso, fez A RUA DAS RIMAS.

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